Dojo Escriba
Olha essa capa do 4º capítulo - recriada mais de uma década depois, no volume 64. Sapo, cobra e lesma. Hoje é tão óbvio, mas na época, à exceção de quem já conhecia "O conto do galante Jiraiya", é um detalhe que deve ter passado batido para muitos. Claro que a gente, ocidental/cristão sabe muito bem o que uma cobra significa, mas da forma como é apresentada, não me soa como uma dica para a gente. Passando para o enredo, em si - a saber, estarei trabalhando com toda a graduação ninja no time Kakashi -, acho que a maior contribuição desses capítulos foi mesmo fincar os papeis dos três protagonistas: O herói, o vilão e a vítima.

 Clique na imagem para vê-la em tamanho completo.

Assim, como nos dois capítulos anteriores, o terceiro continua o trabalho de localizar Naruto como alguém que "supera" a média por baixo: um ninja nº 1 ao contrário. Há pouco a acrescentar sobre ele, exceto os seus primeiros defeitos: Ele sente despeito em relação a Sasuke - e isso é uma característica interessante a ser observada nele - e ele é fútil em relação a Sakura - mas isso explicaremos melhor quando formos falar dela.

Sasuke é perfeito - não caga não peida. Último herdeiro vivo de um clã de elite da vila; ninja do melhor desempenho e melhores notas; bonito; popular [contra a própria vontade]; a mera existência dele, pelas comparações constantes, derrubam Naruto. No capítulo três, é nítido que Naruto queria muito ser ele e estar no pedestal que ele foi colocado - mal ele sabia do desconforto de Sasuke com aquela posição [a gente que já leu tudo sabe]. Já nos capítulos do teste com Kakashi, ele impressiona pela sua desenvoltura, mas decepciona pela arrogância - a partir disso, começam as suas características negativas, encabeçadas pelo seu sonho: destruir uma pessoa. Parece banal, mas é uma ambição um tanto pesada para uma criança de 12 anos. Além de tudo, Sasuke subverte o conceito de sonho, uma vez que, como ele próprio chega a falar, possui um que reside não no futuro, mas no passado. E é no seu passado que mora uma desgraça maior do que o que ele próprio tinha conhecimento.

Vamos combinar uma coisa: a Sakura do início foi feita pra você não gostar dela. O seu ponto de partida é a mediocridade e nada atesta a seu favor. É dito que ela é inteligente, mas essa inteligencia pouco aparece; também se fala que ela é do tipo genjutsu, mas é exatamente nele que ela cai, no teste de Kakashi; por fim, ela sintetiza todo o desprezo da vila em relação a Naruto e, por sua vez, toda a bajulação em relação a Sasuke. A impressão que passa é a de que ela simboliza o papel da norma em relação aos outros dois protagonistas, então Sasuke superar a média e Naruto ser subjugado por ela são os fatores que melhor explicam a relação que Sakura desenvolve com eles. A relação que eles desenvolvem com ela reforça a ideia: Sasuke despreza Sakura na mesma medida em que despreza as regras e a média, enquanto Naruto é desesperado pela sua atenção. Conforme a história progride, vemos tanto Sakura se destacando um pouco dessa mediocridade e agindo por conta própria, inclusive repensando o valor que ela dava a Naruto, como também a mediocridade da opinião pública sobre o seu colega acompanhando a sua. Ou seja, ela também inverte um jogo.

Naruto gosta de Sakura que gosta de Sasuke que... por enquanto nada. Mas, sim, temos um triângulo. Naruto e Sakura são, respectivamente, corpo e mente, elementos sintetizados em Sasuke, que demonstra um desempenho extremamente equilibrado; Naruto e Sasuke são o pior e o melhor, Naruto é associado a tudo o que há de negativo, sendo a sombra da Kyuubi que é a sombra da vila, e Sasuke recebe toda a carga positiva, sendo o sobrevivente do grande Clã Uchiha e Sakura é o que sustenta ambos: a opinião pública; de alguma forma, Sakura deseja superar a mediocridade, subir, avançando na direção de Sasuke, Sasuke deseja se afastar da mediocridade, também subindo - mas ambos estão fadados à norma, são o famigerado "padrãozinho" - e Naruto carrega um desprezo explícito por essa mediocridade, considerando o vandalismo e o desrespeito às autoridades, porém, deseja alcançar algo dela, por estar por baixo, ou seja, Naruto traz uma síntese de Sakura e Sasuke, mas, aparentemente, é uma síntese negativa: ele é a contradição da norma. Vejam como isso refaz a relação de Naruto e Sasuke: a exceção e o excepcional: conotações diferentes que partem da mesma raíz.

Iruka e o Hokage puseram esses três ninjas juntos para criar a equipe equilibrada, mas esse "equilíbrio" se esfacela no primeiro teste, visto que Kakashi carrega apenas 2 guizos, sendo que a aprovação implica conseguir roubar um deles. Sakura, a norma, questiona a incompatibilidade entre a equipe e a aprovação; Sasuke, o gênio, resolve pegar o seu primeiro, sozinho; Naruto, o gênio ao contrário, também; vemos mais um triângulo de 2 contra um: Naruto e Sasuke a iniciativa e Sakura a cautela. Sakura se preocupa com Sasuke e vai atrás dele; Naruto vira a terceira ponta do triângulo: a exclusão. E aqui se começa a formar o triângulo do título do texto, tem sempre alguém contra um e a favor do outro, o triângulo definitivo que une o time Kakashi: "Herói, Vilão e Vítima".

Tentando bancar a heroína e salvar Sasuke, Sakura é derrotada por Kakashi e passa a ser vítima; Sasuke, a vítima hipotética, tenta conseguir a sua aprovação a despeito dos outros dois, se tornando um vilão - inclusive rotulado por Kakashi como arrogante; Naruto, que, por ser considerado uma ameaça à aprovação do grupo, foi vilanizado, também tenta se garantir sozinho e acaba amarrado a um poste e proibido de comer. Contudo, graças à proibição, Sakura e Sasuke, que eram a norma e o seu excepcional, quebram a regra e alimentam Naruto. Sendo o objetivo real do teste não a aquisição dos guizos e sim o trabalho de equipe, alimentar Naruto garantiu a aprovação de todos, convertendo-o assim num herói. E, se vocês que já leram tudo repararem, esse movimento entre papéis é a maior síntese de todo o enredo de "Naruto".

Com isso, lhes faço algumas perguntas: o "padrãozinho" é estar dentro da média ou acima da média [e mesmo assim ser "medido" pela "média"]? Quanta personalidade você tem por estar no topo, se você é medido pela média? Você que está abaixo, ou de fora, não seria também excepcional?

Tentarei trazer texto novo todo sábado, a partir de agora. Desculpem o sumiço.
Eu sempre achei esses segundos capítulo/episódio um tanto avulsos. Não que eles não tenham importância no enredo, mas é que não tem no capítulo seguinte algo que puxe desse, sabe? Acho que ele simplesmente existe para cumprir duas funções: contrapesar o capítulo primeiro e enriquecer a construção do personagem principal.


Talvez seja seguro afirmar que o ponto forte de Naruto (série) são as suas contradições e dualidades. Vejamos o primeiro capítulo: Nele tivemos 3 personagens em destaque, mas eles se relacionaram majoritariamente em duo. Naruto e Iruka contrastaram as regras e a subversão das mesmas; já Mizuki trouxe para a dupla a subversão das regras na aplicação das mesmas, ou melhor, das suas brechas [para quem não entendeu, eu tô falando de manipulação e corrupção]; já os dois professores, entre si, contrastaram os interesses das autoridades: aqueles que utilizam do poder neles investido para ajudar os iniciantes e aqueles que utilizam o mesmo unicamente para defender seus próprios interesses. Em um plano maior - capítulo 1 vs. capítulo 2 -, o contraste passa a ser Naruto como aprendiz e Naruto como mestre.

A apresentação dos dois personagens atesta contra eles e favorece o seu contrário - a opinião pública. Tanto Naruto, quanto Konohamaru, iniciam o capítulo como baixos, infantis e indignos de qualquer respeito, o que é contraditório, visto que ambos, cada um no seu próprio capítulo, lutam por respeito e reconhecimento a todo custo. Mas, aparentemente, tudo o que eles fazem traz o efeito oposto.

A dualidade contida apenas nesse capítulo reside no peso do reconhecimento nas costas de cada um. Um é subestimado e o outro superprotegido, mas ambos fazem questão de mudar esse quadro, vide o esforço de Naruto em aparecer a qualquer custo em contraste com o esforço de Konohamaru em não ser visto. Entre eles - é comum que fique alguém no meio, formando uma tríade - está o terceiro Hokage. E ver Naruto o questionando e, portanto, desrespeitando a hierarquia que torna o ninja extraordinário para Konohamaru. Mas Naruto vai além, ao ser insultado por Konohamaru, ele o agride sem pensar duas vezes, ignorando, inclusive, o aviso de Ebisu de que ele era o neto do Hokage - informação que sempre é suficiente para converter qualquer atenção em bajulação. Eis um encontro inusitado: alguém que sempre foi exaltado, de repente, é subjugado por alguém que sempre foi depreciado. E vice-versa.

Como as regras sempre dão um jeito de reaparecer, lá está Ebisu - o tutor de Konohamaru. Ebisu se acha o máximo pelas suas titulações e, com isso, acredita ser o melhor mestre possível para o neto do Hokage. Diante daquela situação, ele passa a tentar proteger Konohamaru de Naruto a todo custo. Sem sucesso, ressaltamos.

Konohamaru persegue Naruto e o intima a ser o seu mestre. Naruto, empírico ao extremo, tenta converter o que ele sabe em ensinamentos, mas só acaba falando groselha. SÓ QUE KONOHAMARU ACREDITA EM TUDO. É como eu havia dito antes, Naruto finalmente recebe crédito e não de qualquer pessoa, mas de uma pessoa privilegiada cuja atenção é alvo de constantes disputas. Konohamaru, por sua vez, é subjugado pelo lixo da aldeia da folha. Mas a gente vai além, porque a situação se inverte: se pararmos para pensar, Naruto já tem a atenção de todos e eles, que tanto bajulam Konohamaru, na verdade não o enxergam. Então existe uma face deles que as pessoas escolhem sombrear ou potencializar.

O que é contraditório no sonho de Konohamaru - e desviante do que, aparentemente é o de Naruto - é que, no fundo, ele conserva um instinto de preservação da mesma hierarquia que os oprime. Conservador, ele aparentemente não tem interesse em resolver a bajulação pública a uns em detrimento de outros, mas apenas em redirecioná-la para ele.

Contudo, esse encontro com Konohamaru - e se ver respeitado pela primeira vez [ou segunda, se Iruka conta] - reajusta os objetivos de Naruto, que passa de continuar recebendo o tipo de atenção depreciativa que sempre recebeu para lutar por mais respeito. E, mais uma vez, a situação de mestre e aprendiz se inverte.


E é essa inversão o que Ebisu mais temia - pois, uma vez que acaba a deferência para com ele, ele perde a sua razão de ser. Mas, ao aparecer para "deter" Naruto e tentar reaver a tutela de Konohamaru, novamente, projetando nele a sombra do avô. O que, na minha opinião, é extremamente digno de nota nesse encontro é o papel do Jutsu Sexy - nesses 2 primeiros capítulos, ele desmoraliza 3 "autoridades". O jutsu é a verdadeira brecha no monstro que é feito deles ou eles fazem de si próprios, é como se ele expusesse o que escondem os corações moralistas. Aliás, moralistas são, via de regra, uns hipócritas.

Focando no Hokage, é importante, desde já, avaliá-lo, também, pelos seus tiros pela culatra. Por exemplo, ele manteve Naruto sofrendo na vila como a sombra da Kyuubi, sem ao menos estar ciente disso. Realmente existia um dilema em cima dessa verdade e quando o hospedeiro estaria pronto para ouvi-la, mas ele não foi poupado das consequências, por exemplo. Eu digo que é importante porque não é a primeira vez que a sua conduta "correta" traz custos altos para outras pessoas.

No fim do capítulo, Konohamaru, ainda que indiretamente, conseguiu desmistificar o Hokage, tirando-o da sombra e convertendo-o num reflexo positivo. Por causa dele, Hiruzen [esse é o nome dele] se expôs como um velho babão. Tem uma certa sugestão de que ele discorda da conduta de Ebisu e as regrinhas do tutor são subordinadas do Hokage, não superiores.

Ultimas considerações:

1) Se antes os meninos ficavam na sombra do Hokage, agora ele é que é um coadjuvante para a narrativa deles. Eles se emanciparam.

2) Não há atalhos no caminho ninja. E, apesar de ser uma fala de Naruto, esse é um tapa que ambos recebem. Não à toa, ambos só vislumbram uma realização dos sonhos expostos nesse capítulo na saga de Pain - cerca de 400 capítulos mais tarde.

3) Vejam que ironia. Apesar de almejar tanto o reconhecimento, Konohamaru acaba se tornando um apêndice, na história de Naruto.
Escrevo este texto comemorando os 10 anos de quando eu vi o primeiro episódio de Naruto, para o qual voltamos a escrever. Mas voltamos meeeesmo... pro início...
Antes de mais nada, eu gostaria de avisar que, assim como os nossos 4 últimos textos, ideias de fundo trabalhadas em ambos os textos do Pain serão pinceladas em outros textos sobre Naruto - como esse, por exemplo. Provavelmente, porque essas ideias são realmente base da série. Para citar um exemplo, tratamos do controle e aqui estamos, retomando o exato início. E lá estava ele...


O aspirante a Ninja realmente não tinha boas credenciais; era um vândalo, cínico, inábil em qualquer jutsu que tentava e forçava situações que chamavam atenção negativa pra ele. Do outro lado, estavam seus colegas extremamente ultrajados com a sua presença na classe e professores insatisfeitos com seu comportamento errático e o seu desprezo pelas regras e pelo controle. Enfim, era um plot clichê.

Em caráter de curiosidade, é muito interessante que, no anime, tenha havido o acréscimo da cena em que Hinata torce por Naruto e outra em que os figurantes do mangá que o depreciam e repreendem são substituídos por Shikamaru e Ino, pois isto serve de base para a posterior relação de reforço ou ruptura das impressões que os três tinham sobre o ninja.

Nos três primeiros capítulos, Naruto polariza com um personagem em cada: Iruka, seu primeiro professor, era extremamente intolerante a ele e também controlador - em contraste com ele, Naruto era visto como errático e indisciplinado; Konohamaru, por ser neto do Hokage (vejam que ironia) era o bajulado da vila, enquanto Naruto amargava o desprezo das mesmas pessoas - quando comparados, por mais parecido que fosse o seu comportamento, o neto do Hokage sempre levava a melhor, na opinião pública; Sasuke, ninja número 1, rende a Naruto, pelas opiniões, tanto de Kakashi, quanto de Iruka, o título de ninja número 1 ao contrário - fica também com toda a popularidade e é extremamente bajulado.

No primeiro capítulo, Naruto tem um desafio final: ser aprovado como ninja Genin e, para isso, ele precisa aprender a fazer um jutsu de clonagem. Para atingir esse objetivo, ele é "orientado" por Mizuki, um professor mais amigável, a roubar um pergaminho do Hokage para aprender um jutsu de clonagem mais efetivo e poderoso: o cobrado na academia criava uma ilusão de clonagem, o do Hokage criava realmente um clone físico que poderia, inclusive lutar, mas Naruto queria fazer vários clones. E conseguiu.



Mas, para além do seu sucesso com o jutsu de clonagem, Naruto aprendeu algumas coisas sobre as pessoas e sobre si próprio: 1) ele era o hospedeiro da Raposa de Nove Caudas, a Kyuubi - o monstro que destruiu a vila no dia do seu nascimento; 2) eram os tipos de autoridades com as quais ele lidou, neste capítulo; 3) o professor que posou de bonzinho e apresentou uma fala bajuladora, mansa, só desejava vantagens para si próprio - "eu falei algo que te agradou, agora faça isso"; 4) a pessoa que desejava dele o seu crescimento e amadurecimento o criticou no que ele realmente havia errado e, graças a isso, ele evoluiu; 5) Naruto estudou e aprendeu sozinho o jutsu de clonagem e não há nada a ser creditado a nenhum outro indivíduo; 6) o professor que desejava vantagens para si próprio tentou manipular o ódio de Naruto contra quem desejava dele o seu crescimento - e assim percebemos que é bom ter cuidado com o poder conferido a algumas autoridades, porque essas figuras podem ser irresponsáveis e levianas - figuras facilmente atribuíveis a um jovem de 12 anos que apresenta um mal comportamento, só que vindas de uma pessoa adulta, autorizada a pensar e decidir certas coisas; 7) a verdade e a razão não precisam ser insistidas e empurradas à força - em ambos os casos se repete uma situação em que a liberdade de quem ouve pensar por conta própria foi atacada e, desde já, o ideal de "fuja do controle", sobre o qual série se fincou por 700 capítulos, foi anunciado; 8) na prática, Naruto fortaleceu a própria liberdade ao interromper o ciclo de ódio que Mizuki queria propagar; 9) desde o primeiro capítulo, ele já era melhor que os seus dois professores.

Iruka, simbolicamente, entrega a própria bandana a Naruto e isso talvez signifique que, como eu apontei no #9, o novo ninja era realmente mais digno de usá-la do que ele próprio. Mas o capítulo acaba com ele ainda achando que tinha mais coisas a ensinar a Naruto do que aprender com ele, como ele voltará a fazer [e se frustrar] nas próximas oportunidades.

Tem gente que realmente não aprende.
Então sobrou pra Naruto derrotar Pain, né isso?

Encurtando toda a história, a vila da folha foi invadida, já que o líder da Akatsuki precisava do Jinchuuriki da Kyuubi. Os Pains se dividiram, procurando-o, mas apesar de toda a vila estar comprometida a não entregar a sua localização ao custo da própria vida, se preciso – como foi o caso de [spoiler] e [spoiler], o próprio Naruto deu as caras para se acertar com ele pessoalmente.


Antes da luta, ele recebe informações da divisão de inteligência da folha, que estudou um cadáver enviado por Jiraiya [eles também haviam, com ajuda do próprio Naruto, decodificado a mensagem de Jiraiya]:

Todos eles eram, na verdade, cadáveres;

Eles eram controlados através do chackra transferido através de bastões perfurados por todo o corpo como piercings;

O verdadeiro (Nagato) os controlava à distância. Como era uma transmissão, ele se localizava num local alto, afastado do campo de batalha, de acesso quase impossível e protegido pela sua companheira, Konan.

Eis o sádico jogo do Ventríloquo: Nagato e Konan mantinham 6 pessoas reanimadas por energia, infligindo pequenas dores esporádicas que, por razões óbvias, aqueles cadáveres não sentiam mais. Mas todos eles, antes daquilo tudo, possuíam as suas próprias histórias que, ao contrário dos seus manipuladores e os próprios manipulados, o autor da história com certeza não esqueceu. Por essa razão, algumas cenas suas pré-Pain foram mostradas para que o leitor, assim como Jiraiya, percebesse que todos eles estavam se comportando de forma diferente. E, também por essa razão, Naruto chegou para enfrentar um inimigo que, dividido em seis, arrancou diversas informações a seu respeito e o colocou em desvantagem.

Eis, também, a tática de defesa mimética da vila da folha: a divisão de inteligencia da vila da folha distribuiu tarefas para cada um dos seus membros, de modo que eles arrancassem informações do Pain e compartilhassem essas informações uns com os outros. Percebem? Ambos os lados agiram de formas semelhantes de inteligencia coletiva, compartilhando a visão e o raciocínio pra que, então, entregassem essas informações para os ninjas que iriam combater o inimigo. Assim, foi possível que Naruto o enfrentasse em condições de igualdade.


A relatividade acaba onde começam os princípios de cada lado: um deles está trabalhando em prol da propagação do ódio, do ataque e do controle - inclusive, é exatamente aí que se esvazia o discurso da paz mundial - o outro lado está trabalhando em sentido de defesa e proteção das liberdades da própria vila e, principalmente, de Naruto - principal alvo e requisito do seu plano.

O controle por meio da dor fica mais óbvio na cena em que Naruto – único ser vivo da cena – é atingido pelo bastão e agoniza com aquela descarga de energia. Ele é paralisado, mas salvo por Hinata – que aparece de última hora para libertá-lo do transe, retribuindo o mesmo feito a ela, 3 anos antes, na luta das preliminares contra Neji.


Bom, mais uma vez, estando a fim de assistir: os episódios que comprimem essa batalha são os 157-169 e/ou volumes 46-48, se preferirem o mangá.

Enfim, Naruto derrota os Pains e vai atrás do Original para conversar - pq, né? Ele ama conversar e converter todo mundo. Chegando lá, ele percebe que a descoberta de Jiraiya de que “O Verdadeiro não está entre eles” iria muito mais além do que ele imaginava.
Acho que é de senso comum entre quem acompanhou Naruto que Pain foi um dos maiores divisores de águas de toda a série. Se não o maior.

Foi precisamente a partir da sua aparição que as batalhas ninja tomaram uma proporção e uma complexidade muito maiores. Além do mais, foi a partir dele – e, posteriormente, de Madara, mas ele é só outra face dessa mesma moeda – que toda a história anterior precisou ser reorganizada para que, assim, pudesse prosseguir. E, se a gente parar pra pensar, lá no fundo, isso aconteceu pelo poder que Pain tinha nas mãos: o controle teleguiado.


Antes de a gente chegar lá, vou manter um pouco o suspense e mudar o foco para a batalha dele contra o seu antigo mestre, Jiraiya – e lembrar de como esse último sucumbiu ao ex-aluno por estar completamente alheio às habilidades dele.

Jiraiya sabia que, Nagato, um dos seus ex-alunos possuía um desses dons raros nos olhos. Esse era chamado de Rinnegan. Mas o que o surpreendeu no reencontro com ele, anos mais tarde, foi encontrar esses olhos não somente no seu outro aluno, Yahiko, como também em outros cinco seres humanos. Todos ruivos, tal qual o seu líder.

Esse líder, diga-se de passagem, é tido na sua vila da chuva como Deus, e a sua colega, Konan, um anjo seu. Isto porque ele livrou a sua terra de uma antiga praga e protegeu a mesma das guerras que a assolavam. Por outro lado, essa terra não tinha a menor consciência do tamanho da alienação à qual fora submetida com isso; seja do mundo exterior, seja do seu próprio líder – sempre precedido pela sua reputação e pelos boatos ao seu respeito. Mas foi seguindo a pista desses boatos que Jiraiya se infiltrou naquela vila que, mesmo depois de salva por um herói que eliminou “O seu maior carrasco” e prometeu guiar o mundo à paz, continuava melancólica e incapaz de produzir nada que não fosse tristeza e chuva.


Jiraiya não podia sustentar a sua felicidade em ver o ex-aluno bem desenvolvido e mais maduro por muito tempo – pois aquilo implicaria baixar a guarda. Aquilo não era um reencontro, mas uma batalha. Só que, durante toda essa batalha, permaneceu um incômodo quanto ao comportamento de Yahiko: como alguém que sempre fora tão feliz, disposto e animado estava agora amargo, rancoroso e apático? Ele estava realmente confuso quanto a quem era quem, mas, como eu falei, aquilo era uma batalha. E, felizmente, ele conseguiu se lembrar disso a tempo.

Profundamente “dolorido” pelo ciclo de ódio ao qual a sua terra fora condenada, o ex-aluno de Jiraiya montou uma organização pequena, de poucos membros, sendo uma parte deles advinda de passados desumanizadores, e a outra constituída de pessoas habilidosas, mas sem perspectiva de vida. Todos devidamente envenenados pelo seu propósito particular.



Ele próprio, na verdade, era seis. Só que o maior detalhe deles – e isso os tornou “um” vilão letal para Jiraiya – é que, dotados de habilidades diferentes, mas complementares, eles compartilhavam a visão.

Isso implicou para Jiraiya constantes frustrações das suas estratégias de batalha, pois a sua localização e vulnerabilidades eram informações que estavam sempre sendo compartilhadas por seis inimigos que estavam, de algum modo, conectados uns aos outros. Diante disso, eu não preciso dizer que a única saída do ninja foi se preparar para a morte. Contudo, ele não o fez gratuitamente, mas com uma última estratégia acompanhada de uma aposta: ele se comprometeu a descobrir o segredo desse inimigo, codificar esse segredo e passá-lo, através de um livro escrito por ele mesmo, para o seu pupilo posterior, Naruto.



E esse segredo era: “O verdadeiro não está entre eles”.
A trama do primeiro episódio é relativamente simples: para chantagear um homem de cargo político importante, terroristas virtuais sequestram a princesa da Inglaterra e o obrigam a realizar uma tarefa chocante, em frente às câmeras: ele precisará fazer sexo com um porco (!). O decorrer do episódio é extraordinário tanto em termos técnicos quanto emocionais, da mesma forma que o roteiro trabalha de forma profunda a teia de forças envolvidas a esse tipo de ataque - que vão da força policial/investigativa a serviço do político à imprensa e até mesmo a influencia da opinião popular na sua decisão final -, existe também o efeito que algumas cenas causam no espectador, como por exemplo a desconsertante verdade de que as pessoas se divertem em ver outras pessoas sendo humilhadas dessa forma - os sorrisos de alguns diante da exibição foi uma das coisas mais assustadoras que eu já vi. Esqueça a Samara, repense a Regan possuída pelo pazuzu e nem pense na Annabelle [btw, achei fraco], o ser humano dá de 10x0 nas três.


O desfecho é um espetáculo a parte; a trilha sonora e os cortes da edição entre as cenas finais e os créditos deram um efeito autenticamente pessimista aos desdobramentos do video e sequelas morais do protagonista. E uma revelação no finzinho da exibição do vídeo; no momento do resgate à princesa te faz sentir ainda pior do que vinha sentindo. É um primeiro episódio que anuncia uma série forte - sinceramente, eu não tive outra palavra pra comentar o fim [a não ser “rapaz…”]. Black Mirror, num tom sério e, portanto, mais respeitável traz algumas reflexões perturbadoras acerca de como a tecnologia vem transformando o ser humano. E, ao mesmo tempo, como existem fundamentos que antecedem a própria era da informação agindo no nosso uso dessas tecnologias, como, por exemplo, a necessidade medieval de escárnio alheio.
Competência tecnológica não é indicativo de emancipação intelectual. 
No decorrer da trama, vemos os mais variados dispositivos sendo usados contra e a favor das vítimas (a sequestrada e o chantageado) - sim, sendo usados, é importante ter isso em mente antes de atribuir algum julgamento moral acerca da forma como a tecnologia é utilizada. Antes de tudo, temos pessoas pensando por essas máquinas; e pensando, as vezes, apenas em seus próprios interesses. Doentios e perturbadores como forem.
Primeiramente, vocês viram o final de Scream Queens? Segundo, vocês se importam com Spoiler? Durante metade do texto, não vou citar diretamente o nome do Assassino, mas vou falar sobre ele, então vocês podem acabar descobrindo por associação. Depois do gif do Nick Jonas, o spoiler é livre, melhor não rolar a página até o fim pra conferir o tamanho do texto.

No post eu tinha falado sobre como alguns filmes de terror resolvem regredir e apostar no óbvio pra subverter a surpresa final. Scream Queens, durante toda a temporada, buscou fugir do óbvio, revelando 2 dos assassinos logo na primeira metade da temporada. Pra mim, isso foi uma estratégia ousada. No meio de uma trama tão carregada de elementos centrais e periféricos (diferente de MTV Scream que arrastou bastante, a série da FOX trazia informações novas, mortes e reviravoltas em todos os episódios - os caras chegaram a fazer um maravilhoso episódio 10 que mostrou que eles deram conta de incriminar praticamente todos os personagens), foi grande a minha expectativa por um enorme final twist.

Descartando uma possibilidade óbvia até no sobrenome - que era inclusive a aposta da própria Emma Roberts -, eu imaginei alguém desmentido a história dos bebês gêmeos - a reitora, sendo a assassina, forjara o retrato e a história toda; imaginei a Chanel #4 reaparecendo e sendo a assassina; imaginei os bebês sendo ambos homens (desmentindo a história, novamente) e o segundo ser o Pete e o episódio 11 me deu uma enorme esperança de que eu tinha razão. Mas aí a série engata a marcha ré e aposta no óbvio [haha], usa a primeira possibilidade que descartamos, justamente por ser tão óbvia, e acaba entregando uma surpresa um tanto frustrante. As série do Ryan Murphy já têm dessas coisas.


Sei lá, imagino que ele tenha criado aquelas situações em que o último Red Devil se comportava de forma excessivamente estranha justamente pra brincar com esse “tava na cara”. Porém, muita gente também achou isso um tiro pela culatra. Seria muito mais válido deixar a revelação de Pete pra depois, porque aquele cena aumentou ainda mais as nossas expectativas por um unmasking grandioso. Mas, enfim, aceitando que o final foi esse, vamos analisá-lo.

Quando eu assisti Scre4m, curiosamente, desejei um fim semelhante a esse, onde o assassino tinha como motivação destronar o protagonista - e também eu já achava que Sidney deu o que tinha que dar. Eu até queria que “o assassino” se desse bem e prosseguisse a franquia posando de vítima. Exatamente o que Scream Queens nos apresentou. O que mudou aqui foi o contexto. O assassino queria fazer justiça, não só contra a protagonista, mas contra todo o sistema que ela representava e ajudava a manter em voga. Como foi dito, as irmandades haviam destruído a vida de cerca de 100 pessoas a mais do que o Red Devil e alguém precisava pagar. Não vou discutir noções de justiça e vingança - isso fica pra outra postagem - mas ao mesmo tempo que a gente pensa que isso torna pessoas legais em assassinos, como Grace ressaltou, jogar limpo não iria levar a vitória. E é aí que a gente precisa desamarrar a cara para aquele final.


Da mesma forma que os Screams, Hester trouxe uma reflexão um pouco mais profunda a respeito dos justiceiros: eles não são os responsáveis por tudo. Eles sempre têm a ajuda [voluntária ou não] de detetives preguiçosos, pessoas influentes a fim de abafar o caso e evitar má publicidade, gente com interesses semelhantes - seja justiça, vingança ou vontade se se livrar de alguém -, e todos esses elementos fogem do nosso senso do que é certo ou errado porque nos mostram que todo mundo tem um pouco de culpa nas mais variadas coisas que consideramos ruins, mas preferimos depositá-la nas Chanels que encontramos.
“Você torna difícil acreditar que não é o assassino” - Grace Gardner.
 O dia foi salvo, a Kappa mudou o clima de ambição e negatividade, a universidade voltou a ser uma das mais seguras e eles até criaram uma ONG pra ajudar às mulheres que passaram pela mesma situação que a moça da banheira - abandonada em trabalho de parto, pra quem não assistiu nem leu minha outra análise. Mas, em compensação, inocentes foram punidos, seja pelos assassinatos que ocorreram durante toda a temporada - que fizeram vítimas algumas das pessoas cujo propósito do Red Devil era defender -, seja pelas pessoas que foram culpadas no seu lugar - não vamos nos esquecer de Feather indo pra camisa de força, no episódio 7. Por essas e outras, dá pra concluir que o desfecho não foi assim tão feliz.

A partir de agora, vou precisar citar nomes e acontecimentos.


Óbvia como pode ter sido a surpresa, a trajetória de Hester Ulrich não pode ser desmerecida por isso. Revendo os inícios dos episódios 1 e 13, fica claro que ela usurpou o lugar de Chanel - não como presidente, mas como sujeito principal da série -, quando, com ares de Jill Roberts [sim, elas são parecidas], ela remonta tudo o que ela precisou fazer pra dar cabo ao seu plano de vingança - e o que ela precisou sustentar pra ninguém desconfiar dela -, da mesma forma que Chanel narra o início da série. Percebem o movimento da trama? Você precisa admitir que ela foi uma assassina foda.

Outra coisa interessante que precisa ser ressaltada, já entramos na tal da metalinguagem, foi como a própria série tratou o fato de termos desconfiado pouco dela justamente por ela ser tão estranha e suspeita:
“Quanto mais estranho você é, menos querem saber sobre você” - Hester Ulrich.
E o mais engraçado foi que Gigi e ela até eram parecidas [eu sei que elas não são mãe e filha biológicas, mas creio que isso era mais uma dica].


Uma das coisas controvérsias, pra mim, sobre a série como um todo é que a autoconsciência dos personagens tornam algumas críticas bem didáticas. Quero dizer, isso é positivo em alguns momentos, pois como o enredo brinca com o limiar entre apologia e crítica, as vezes, é preciso se explicar um pouco, para o público sacar de qual lado das ideias ele está, mas o público também precisa ser permitido tirar algumas conclusões por si próprio - até pra que haja uma diversidade maior de interpretações. Pois bem, o desfecho das Chanels e Grace/Zayday foi bem didático, até certo ponto.

Para instaurar um equilíbrio na Kappa Kappa Tau, Chanel precisava ser destronada de lá e a dupla formada pela sonsa da Grace seriam boas novas presidentes - vamos admitir. Chanel, por sua vez e finalmente, reconheceu que esse desequilíbrio causado na casa era de ordem mental mesmo - com todas as letras: Ela é uma desequilibrada [carismática, demagoga e divertidíssima - mais legal que Grace -, mas uma desequilibrada]. Constatado isso, ela vai pro espaço fisicamente representava o que a Kappa era há muito tempo: um hospício. Como mencionei, no início do texto, Ryan Murphy curte fazer uns finais de novela nas séries dele (tomando 4 temporadas de American Horror Story como referência - ainda não assisti Glee). Ele tenta resolver todos os problemas da série, no último episódio, da maneira [que se crê que o público considere a] mais satisfatória possível: o povo-de-coração-bão se dá bem e os “malvados” pagam. E, mesmo assim, conseguiu empregar algumas críticas ao status quo dos finais felizes.

É legal quando se inverte essa lógica do que é bom e o que é ruim. A reflexão que esse final nos trouxe é que muitas características que são consideradas negativas, quando associadas a um vilão, passam despercebidas quando reproduzidas por personagens que nos são vendidos como bonzinhos. Já temos os casos das prisões, assassinatos e incriminações de inocentes, mas as duas imagens finais que o último episódio apresenta ilustram bem o que estou falando:

Uma das coisas que eu achei curioso sobre o lado que Hester ficou é que, ao passo em que eles pregam ideais de auto-aceitação e respeito à diversidade, pra voltar a ser considerada normal, lá está ela com os cabelos alisados e visual completamente diferente do que a rotulava como louca - exatamente a mesma coisa que Chanel fez com ela para torná-la uma minion.

Enquanto isso, o que não precisa ser muito explicado - porque a própria Chanel fez isso - é que o manicômio acabou sendo o lugar mais sadio para onde ela poderia ir [um manicômio idealizado e sem os maus tratos que Asylum retratou, vale ressaltar]. Esse lado da história ficou mais claro porque Chanel sempre foi a mais sincera [um reflexo difícil de lidar, como já abordei no outro post]. Lá ela finalmente se livrou do paradigma da vida como um sistema de classes, do clima de ambição e negatividade, das roupas caras, do julgamento das pessoas [a exemplo da Chanel #3 finalmente começando a curtir a vida lésbica] - enfim, desse clichê todo que a gente já entende que faz mal às pessoas -, fez as pazes com a coitada da Chanel #5 e, como a demagoga nata que ela é, já tratou de ser a rainha desse novo espaço. Algumas coisas realmente não mudam.
Certamente, o trabalho com as referências de outros filmes do gênero e o uso do espaço mais trash dos slasher movies já não é mais alguma novidade. Quando a fórmula criada por Williamsom e Craven esgotou possibilidades - fato muito bem representado na intro de Scre4m -, grande parte dos filmes de terror resolveu apostar no óbvio como forma de mudar a lógica da surpresa final [você espera que será algo mais surpreendente e, de repente, acaba sendo surpreendido pela primeira possibilidade descartada], outra parte resolveu apelar para a violência gráfica (Jogos Mortais, por exemplo) e a outra seguiu para a formula do falso documentário [outra que já deu o que tinha que dar]. Todo mundo em pânico e, mais recentemente, Pânico 4 mostraram que a paródia e a metalinguagem ainda rendiam boas obras. E, de certa forma, impulsionaram novas tentativas. Scream Queens foi uma delas. E posso falar que essa série deu mais uns passos à frente com essa formula.


A série da Fox é sagaz, esperta e tem uma ironia tão fina que parte dos expectadores usuais de comédias e terror vai interpretar como um insulto à inteligencia deles [e mostrar que a ironia é eles acharem que são tão inteligentes e acima dela]. A série traz tantas piadas; e tantos diálogos de duplo sentido; e tantas referências faladas e embutidas; tantos suspeitos e, claro, tantas mortes, logo no primeiro episódio, que de início, me admirou a recepção negativa de parte das pessoas que conferiram.

Só pra vocês terem uma ideia, além das óbvia referências à Scream: que vão desde à escala de estrelas de grande porte pra serem descartadas logo no início - como Drew Barrymore, no filme original - à cenas de assassinato com serra elétrica, ou num labirinto assumidamente inspirado em O Iluminado, ou mesmo no chuveiro - cena interpretada por Jamie Lee Curtis, filha da Janet Leigh de Psicose [avisando pra não interpretarem essas indicações como spoiler, pois alguns sobrevivem a essas cenas]. Os personagens, por sua vez, beiram o absurdo; e é proposital. E, talvez, seja esse ponto com o qual muitos expectadores não conseguiram lidar.


Da mesma forma que Scream buscou refletir sobre a criação de jovens psicopatas pela sociedade americana - usando, em cada filme, a violência, os podres de Hollywood e as mídias sociais como embasamento - Scream Queens retoma boa parte dessas críticas, iniciando-as justamente em 1995, foco do primeiro filme. A cena de abertura nos traz um vislumbre da superficialidade dos membros de irmandades universitárias [e dos jovens daquela geração, de modo geral], quando estas já nos são apresentadas abandonando uma colega em trabalho de parto para curtir a musica favorita delas (!!).

Marca registrada de Ryan Murphy, criador da série, as críticas são provocativas e contextualizadas. Na cena em questão, temos o perfeito vislumbre do simulacro de vida que levam os seres retratados; estes representam a ineficácia da forma como o amor é representado nas músicas, quando optam por consumir uma mensagem que poderia ser vivida. As meninas foram celebrar a vida com uma música deixando pra trás, justamente, um nascimento. Isso é uma perfeita amostra dos males de uma sociedade voltada ao consumo que só completa uma já anunciada [fora da série] falta de sentido no mundo. E não se abstenha de experimentar essa crítica porque eu estou me referindo ao nosso mundo.


E tudo isso está longe de parar por aí. Essa irmandade gera dois frutos: Grace e Chanel, as protagonistas da séries. Antagonistas entre si, a primeira é idealista e apegada ao pai - Grace romantiza a irmandade Kappa Kappa Tau, da qual pertenceu a sua já falecida mãe -, enquanto a segunda é a presidente da Kappa, desligada dos pais, exceto financeiramente, Chanel é narcisista, racista, homofóbica - enfim, possui um desprezo por todo tipo de minoria. A presidente da KKT chega ao ponto de usar membros da irmandade como minions, extensões dela que usam números (Chanel #2, #3 e #5) no lugar dos nomes - os quais ela nunca se preocupou em saber. Por outro lado, a personagem se torna manipulável quando se trata do namorado, o igualmente narcisista e igualmente presidente [mas de outra irmandade] Chad Radwell, que é empoderado pelo machismo. O que agrava o caso.

O interessante, a partir daí é a forma que os criadores/roteiristas encontram para sustentar, nas performances dos personagens e nos diálogos, as suas críticas: eles são absurdamente sinceros. Sim, eles falam exatamente o que eles acham de cada situação. Pra se ter um exemplo, tem uma cena onde as meninas estão discutindo a entrada do primeiro membro homem do grupo - um rapaz gay (personagem de Nick Jonas) que, por esse motivo, corre o risco de ser expulso da irmandade de Chad [ressaltando que o presidente o aceita e trata como irmão] - ao invés de desconversarem a sua homofobia, uma delas o ridiculariza abertamente, enquanto a outra pensa na boa publicidade que a inclusão do rapaz na irmandade seria de boa publicidade pra ela. Ainda que tudo seja atenuado com um ótimo senso de humor e boas piadas, isso pode chocar alguns expectadores justamente por expôr os preconceitos que eles escondem por medo de serem execrados nos lugares públicos e nas redes sociais. E esse tipo de reflexão/reflexo incomoda muito.


Entre estas críticas e algumas mais didáticas - como uma cena em que as meninas refletem sobre abdicarem de sua nutrição para serem magras para os homens e acabam problematizando vários outros problemas do patriarcado -, a série ainda discute temas mais neutros em relação às minorias. Temos cenas onde estudantes se comportam como palhaços enquanto a reitora é entrevistada, para aparecerem na tv [beleza, Todo Mundo em Pânico já havia feito isso]; ou quando um dos personagens é amarrado numa pilastra em frente ao campus e, ao invés de ajudarem, os seus colegas riem e tiram fotos; tem também a cena em que os estudantes vão a uma festa numa casa abandonada com cadáveres de verdade para fotografá-los [retomando os temas da falta de sentido e da celebração da vidas]; e, claro, os famosos pedem-pra-morrer, parodiando personagens que agem de forma totalmente burra nos filmes de terror porque mal escritos/dirigidos. Os próprios figurantes são dirigidos para representarem essa superficialidade, atuando de forma extremamente estereotipada. Tais coisas podem passar despercebidas, caso você simplesmente opte por julgá-los maus atores. Mas com certeza a cena mais memorável nesse quesito foi a que o assassino “bate-papo” com a vítima no whatsapp, estando um diante do outro; a cena vai ainda mais além quando a vítima vai buscar o notebook pra tuitar que está morrendo.

Com isso, eu concluo que a superficialidade proposital do enredo representa muitas desconcertantes verdades, como as já descritas - entre tantas outras que dariam uma série de texto de tantos paradigmas problematizados. Diante disso, o negócio é sintonizar o nosso senso crítico com a abordagem absurda de um enredo que, curiosamente, abdicou da verosimilhança para ser verosímil, pra que, então, ele esteja livre pra mostrar o seu espetáculo. Dar à série a chance de falar e a si próprio a chance de aprender a língua dela - isso é muito enriquecedor.

Em tempo, é sempre bom lembrar que algumas críticas vêm em tamanho único. Então é sempre bom experimentar pra ver se lhe cabem.
É uma investida corajosa. O episódio piloto de Naruto não apela para o elemento de incompletude do episódio para forçar o expectador a ver o próximo; a história por si só já apresenta uma trama bem fechadinha, mas instigante.


Eu tenho que admitir que o primeiro gancho da história é a obstinação e a persistência dos protagonistas em seus objetivos, mas resumir a série a isso é simplesmente empobrecedor. É prosseguindo que a série desabrocha e mostra o seu espetáculo, quando os outros personagens entram em cena. A atmosfera é bastante melancólica e, principalmente, apresenta crianças com com milhares de feridas abertas, sonhando num mundo que é muito duro com elas.

Sem me meter a fazer comparações, Naruto trouxe uma dimensão de profundidade no maior número de personagens, mesmo os mais distantes. Fazendo breves apresentações, nosso protagonista é um órfão alvo do ódio de toda a vila sem saber a razão disso. Ao nascer, ele teve uma arma de guerra selada em seu corpo - uma raposa de nove caldas. O seu colega de equipe, Sasuke, teve a família dizimada pelo próprio irmão e cresce carregando esse ódio e deseja ter uma vingança. O terceiro membro da equipe é constantemente desvalorizado pelo público, mas também carrega peso nos ombros: Sakura é filha de pais não-ninjas e precisou se desenvolver sozinha; foi alvo de constantes depreciações na infância e acabou crescendo estudiosa, mas vaidosa e arrogante. Essa descrição foi superficial, apenas dá uma mera base para o que acontece em seguida e o grande espetáculo acontece conforme eles progridem.

Outro fator bastante observável é o quanto a história se mostra imparcial em relação aos resultados das batalhas - é bem seco: o forte/melhor adaptado ganhava e o fraco perdia, não importa o carisma, a bondade ou a motivação do personagem (como grandes exemplos, as derrotas de Hinata e Lee). Porém, é em momentos como esses que também é observável uma grande característica da série: a dignidade desses personagens que só cresce com as provações.

Acho que quem assistiu e deseja indicar pode, nos comentários, dar mais detalhes. Mas eu prometo voltar a escrever sobre Naruto e, desta vez, trazer mais detalhes.
Postagens mais antigas Página inicial

Translate

TOP 5 do Mês

  • O fracasso do bem-sucedido
  • Super-Ego
  • Alphabet Boy
  • Unilateralidade
  • Dividir e conquistar

Categorias

  • Crítica 3
  • Filme 4
  • Jogo 1
  • Metalinguagem 2
  • Música 1
  • Naruto 6
  • Reflexão 16
  • Série 9

POSTAGENS POPULARES

  • O Verdadeiro não está entre eles
  • Dividir e conquistar
  • Alphabet Boy

Estando a fim de contribuir...

Estando a fim de contribuir...
Clique na imagem - Padrim | Dojo Escriba

Copyright © 2018 Dojo Escriba. Theme by OddThemes.