Dojo Escriba
Olha essa capa do 4º capítulo - recriada mais de uma década depois, no volume 64. Sapo, cobra e lesma. Hoje é tão óbvio, mas na época, à exceção de quem já conhecia "O conto do galante Jiraiya", é um detalhe que deve ter passado batido para muitos. Claro que a gente, ocidental/cristão sabe muito bem o que uma cobra significa, mas da forma como é apresentada, não me soa como uma dica para a gente. Passando para o enredo, em si - a saber, estarei trabalhando com toda a graduação ninja no time Kakashi -, acho que a maior contribuição desses capítulos foi mesmo fincar os papeis dos três protagonistas: O herói, o vilão e a vítima.

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Assim, como nos dois capítulos anteriores, o terceiro continua o trabalho de localizar Naruto como alguém que "supera" a média por baixo: um ninja nº 1 ao contrário. Há pouco a acrescentar sobre ele, exceto os seus primeiros defeitos: Ele sente despeito em relação a Sasuke - e isso é uma característica interessante a ser observada nele - e ele é fútil em relação a Sakura - mas isso explicaremos melhor quando formos falar dela.

Sasuke é perfeito - não caga não peida. Último herdeiro vivo de um clã de elite da vila; ninja do melhor desempenho e melhores notas; bonito; popular [contra a própria vontade]; a mera existência dele, pelas comparações constantes, derrubam Naruto. No capítulo três, é nítido que Naruto queria muito ser ele e estar no pedestal que ele foi colocado - mal ele sabia do desconforto de Sasuke com aquela posição [a gente que já leu tudo sabe]. Já nos capítulos do teste com Kakashi, ele impressiona pela sua desenvoltura, mas decepciona pela arrogância - a partir disso, começam as suas características negativas, encabeçadas pelo seu sonho: destruir uma pessoa. Parece banal, mas é uma ambição um tanto pesada para uma criança de 12 anos. Além de tudo, Sasuke subverte o conceito de sonho, uma vez que, como ele próprio chega a falar, possui um que reside não no futuro, mas no passado. E é no seu passado que mora uma desgraça maior do que o que ele próprio tinha conhecimento.

Vamos combinar uma coisa: a Sakura do início foi feita pra você não gostar dela. O seu ponto de partida é a mediocridade e nada atesta a seu favor. É dito que ela é inteligente, mas essa inteligencia pouco aparece; também se fala que ela é do tipo genjutsu, mas é exatamente nele que ela cai, no teste de Kakashi; por fim, ela sintetiza todo o desprezo da vila em relação a Naruto e, por sua vez, toda a bajulação em relação a Sasuke. A impressão que passa é a de que ela simboliza o papel da norma em relação aos outros dois protagonistas, então Sasuke superar a média e Naruto ser subjugado por ela são os fatores que melhor explicam a relação que Sakura desenvolve com eles. A relação que eles desenvolvem com ela reforça a ideia: Sasuke despreza Sakura na mesma medida em que despreza as regras e a média, enquanto Naruto é desesperado pela sua atenção. Conforme a história progride, vemos tanto Sakura se destacando um pouco dessa mediocridade e agindo por conta própria, inclusive repensando o valor que ela dava a Naruto, como também a mediocridade da opinião pública sobre o seu colega acompanhando a sua. Ou seja, ela também inverte um jogo.

Naruto gosta de Sakura que gosta de Sasuke que... por enquanto nada. Mas, sim, temos um triângulo. Naruto e Sakura são, respectivamente, corpo e mente, elementos sintetizados em Sasuke, que demonstra um desempenho extremamente equilibrado; Naruto e Sasuke são o pior e o melhor, Naruto é associado a tudo o que há de negativo, sendo a sombra da Kyuubi que é a sombra da vila, e Sasuke recebe toda a carga positiva, sendo o sobrevivente do grande Clã Uchiha e Sakura é o que sustenta ambos: a opinião pública; de alguma forma, Sakura deseja superar a mediocridade, subir, avançando na direção de Sasuke, Sasuke deseja se afastar da mediocridade, também subindo - mas ambos estão fadados à norma, são o famigerado "padrãozinho" - e Naruto carrega um desprezo explícito por essa mediocridade, considerando o vandalismo e o desrespeito às autoridades, porém, deseja alcançar algo dela, por estar por baixo, ou seja, Naruto traz uma síntese de Sakura e Sasuke, mas, aparentemente, é uma síntese negativa: ele é a contradição da norma. Vejam como isso refaz a relação de Naruto e Sasuke: a exceção e o excepcional: conotações diferentes que partem da mesma raíz.

Iruka e o Hokage puseram esses três ninjas juntos para criar a equipe equilibrada, mas esse "equilíbrio" se esfacela no primeiro teste, visto que Kakashi carrega apenas 2 guizos, sendo que a aprovação implica conseguir roubar um deles. Sakura, a norma, questiona a incompatibilidade entre a equipe e a aprovação; Sasuke, o gênio, resolve pegar o seu primeiro, sozinho; Naruto, o gênio ao contrário, também; vemos mais um triângulo de 2 contra um: Naruto e Sasuke a iniciativa e Sakura a cautela. Sakura se preocupa com Sasuke e vai atrás dele; Naruto vira a terceira ponta do triângulo: a exclusão. E aqui se começa a formar o triângulo do título do texto, tem sempre alguém contra um e a favor do outro, o triângulo definitivo que une o time Kakashi: "Herói, Vilão e Vítima".

Tentando bancar a heroína e salvar Sasuke, Sakura é derrotada por Kakashi e passa a ser vítima; Sasuke, a vítima hipotética, tenta conseguir a sua aprovação a despeito dos outros dois, se tornando um vilão - inclusive rotulado por Kakashi como arrogante; Naruto, que, por ser considerado uma ameaça à aprovação do grupo, foi vilanizado, também tenta se garantir sozinho e acaba amarrado a um poste e proibido de comer. Contudo, graças à proibição, Sakura e Sasuke, que eram a norma e o seu excepcional, quebram a regra e alimentam Naruto. Sendo o objetivo real do teste não a aquisição dos guizos e sim o trabalho de equipe, alimentar Naruto garantiu a aprovação de todos, convertendo-o assim num herói. E, se vocês que já leram tudo repararem, esse movimento entre papéis é a maior síntese de todo o enredo de "Naruto".

Com isso, lhes faço algumas perguntas: o "padrãozinho" é estar dentro da média ou acima da média [e mesmo assim ser "medido" pela "média"]? Quanta personalidade você tem por estar no topo, se você é medido pela média? Você que está abaixo, ou de fora, não seria também excepcional?

Tentarei trazer texto novo todo sábado, a partir de agora. Desculpem o sumiço.
Eu sempre achei esses segundos capítulo/episódio um tanto avulsos. Não que eles não tenham importância no enredo, mas é que não tem no capítulo seguinte algo que puxe desse, sabe? Acho que ele simplesmente existe para cumprir duas funções: contrapesar o capítulo primeiro e enriquecer a construção do personagem principal.


Talvez seja seguro afirmar que o ponto forte de Naruto (série) são as suas contradições e dualidades. Vejamos o primeiro capítulo: Nele tivemos 3 personagens em destaque, mas eles se relacionaram majoritariamente em duo. Naruto e Iruka contrastaram as regras e a subversão das mesmas; já Mizuki trouxe para a dupla a subversão das regras na aplicação das mesmas, ou melhor, das suas brechas [para quem não entendeu, eu tô falando de manipulação e corrupção]; já os dois professores, entre si, contrastaram os interesses das autoridades: aqueles que utilizam do poder neles investido para ajudar os iniciantes e aqueles que utilizam o mesmo unicamente para defender seus próprios interesses. Em um plano maior - capítulo 1 vs. capítulo 2 -, o contraste passa a ser Naruto como aprendiz e Naruto como mestre.

A apresentação dos dois personagens atesta contra eles e favorece o seu contrário - a opinião pública. Tanto Naruto, quanto Konohamaru, iniciam o capítulo como baixos, infantis e indignos de qualquer respeito, o que é contraditório, visto que ambos, cada um no seu próprio capítulo, lutam por respeito e reconhecimento a todo custo. Mas, aparentemente, tudo o que eles fazem traz o efeito oposto.

A dualidade contida apenas nesse capítulo reside no peso do reconhecimento nas costas de cada um. Um é subestimado e o outro superprotegido, mas ambos fazem questão de mudar esse quadro, vide o esforço de Naruto em aparecer a qualquer custo em contraste com o esforço de Konohamaru em não ser visto. Entre eles - é comum que fique alguém no meio, formando uma tríade - está o terceiro Hokage. E ver Naruto o questionando e, portanto, desrespeitando a hierarquia que torna o ninja extraordinário para Konohamaru. Mas Naruto vai além, ao ser insultado por Konohamaru, ele o agride sem pensar duas vezes, ignorando, inclusive, o aviso de Ebisu de que ele era o neto do Hokage - informação que sempre é suficiente para converter qualquer atenção em bajulação. Eis um encontro inusitado: alguém que sempre foi exaltado, de repente, é subjugado por alguém que sempre foi depreciado. E vice-versa.

Como as regras sempre dão um jeito de reaparecer, lá está Ebisu - o tutor de Konohamaru. Ebisu se acha o máximo pelas suas titulações e, com isso, acredita ser o melhor mestre possível para o neto do Hokage. Diante daquela situação, ele passa a tentar proteger Konohamaru de Naruto a todo custo. Sem sucesso, ressaltamos.

Konohamaru persegue Naruto e o intima a ser o seu mestre. Naruto, empírico ao extremo, tenta converter o que ele sabe em ensinamentos, mas só acaba falando groselha. SÓ QUE KONOHAMARU ACREDITA EM TUDO. É como eu havia dito antes, Naruto finalmente recebe crédito e não de qualquer pessoa, mas de uma pessoa privilegiada cuja atenção é alvo de constantes disputas. Konohamaru, por sua vez, é subjugado pelo lixo da aldeia da folha. Mas a gente vai além, porque a situação se inverte: se pararmos para pensar, Naruto já tem a atenção de todos e eles, que tanto bajulam Konohamaru, na verdade não o enxergam. Então existe uma face deles que as pessoas escolhem sombrear ou potencializar.

O que é contraditório no sonho de Konohamaru - e desviante do que, aparentemente é o de Naruto - é que, no fundo, ele conserva um instinto de preservação da mesma hierarquia que os oprime. Conservador, ele aparentemente não tem interesse em resolver a bajulação pública a uns em detrimento de outros, mas apenas em redirecioná-la para ele.

Contudo, esse encontro com Konohamaru - e se ver respeitado pela primeira vez [ou segunda, se Iruka conta] - reajusta os objetivos de Naruto, que passa de continuar recebendo o tipo de atenção depreciativa que sempre recebeu para lutar por mais respeito. E, mais uma vez, a situação de mestre e aprendiz se inverte.


E é essa inversão o que Ebisu mais temia - pois, uma vez que acaba a deferência para com ele, ele perde a sua razão de ser. Mas, ao aparecer para "deter" Naruto e tentar reaver a tutela de Konohamaru, novamente, projetando nele a sombra do avô. O que, na minha opinião, é extremamente digno de nota nesse encontro é o papel do Jutsu Sexy - nesses 2 primeiros capítulos, ele desmoraliza 3 "autoridades". O jutsu é a verdadeira brecha no monstro que é feito deles ou eles fazem de si próprios, é como se ele expusesse o que escondem os corações moralistas. Aliás, moralistas são, via de regra, uns hipócritas.

Focando no Hokage, é importante, desde já, avaliá-lo, também, pelos seus tiros pela culatra. Por exemplo, ele manteve Naruto sofrendo na vila como a sombra da Kyuubi, sem ao menos estar ciente disso. Realmente existia um dilema em cima dessa verdade e quando o hospedeiro estaria pronto para ouvi-la, mas ele não foi poupado das consequências, por exemplo. Eu digo que é importante porque não é a primeira vez que a sua conduta "correta" traz custos altos para outras pessoas.

No fim do capítulo, Konohamaru, ainda que indiretamente, conseguiu desmistificar o Hokage, tirando-o da sombra e convertendo-o num reflexo positivo. Por causa dele, Hiruzen [esse é o nome dele] se expôs como um velho babão. Tem uma certa sugestão de que ele discorda da conduta de Ebisu e as regrinhas do tutor são subordinadas do Hokage, não superiores.

Ultimas considerações:

1) Se antes os meninos ficavam na sombra do Hokage, agora ele é que é um coadjuvante para a narrativa deles. Eles se emanciparam.

2) Não há atalhos no caminho ninja. E, apesar de ser uma fala de Naruto, esse é um tapa que ambos recebem. Não à toa, ambos só vislumbram uma realização dos sonhos expostos nesse capítulo na saga de Pain - cerca de 400 capítulos mais tarde.

3) Vejam que ironia. Apesar de almejar tanto o reconhecimento, Konohamaru acaba se tornando um apêndice, na história de Naruto.
O começo não é nada fácil.

OK, os primeiros momentos são muito bons: os sonhos, as expectativas, as ideias... Tem muita coisa pela frente e a gente quase sempre começa uma coisa extremamente empolgado. Mas aí a fantasia acaba e os sonhos precisam se converter em planejamentos, as expectativas em concretude, as ideias em atitudes - ou, no nosso caso, textos.


Não é fácil. Escrever não é fácil. Saber o que para quem você escreve, muito menos.

Penso: "Esse tema deveria atrair tal público, mas a escrita aparentemente não combina com ele. acho que é um tema muito infantil para uma abordagem muito adulta"; ou "Será que não viajei bastante nisso?"; "Será que não fui muito ácido?"; "Eu devo agradar ou incomodar o meu público? Se eu faço o primeiro, vou acabar fingindo e me perdendo nas expectativas deles - isso acaba com a criatividade. Se incomodo, posso não ter público - escrever para ninguém é burrice".

Contudo, "escrever para ninguém" é talvez justamente a provação inicial. A gente não tem leitores fieis ainda. Se tivermos, dentro de nós mesmos, escritores fiéis, já é um grande progresso - quantas pessoas não começam diariamente diversas coisas e se desmotivam por falta de feedback? 

Mas aí aparecem as primeiras visitas. A primeira dezena dá muito gosto de ver. I mean, "tem 10 pessoinhas aqui perdidas que podem estar se encontrando no que eu escrevo - mas, espera, agora eu tenho uma responsabilidade com elas (?)". Depois, vem a ambição: "agora eu quero 100". Só que, para que ela se concretize, mais tarefas são requeridas. Agora você precisa divulgar; tem que achar site relevante; tem que ter rede social; tem que ficar de olho nas tendências para escrever sobre elas - "mas será que eu realmente quero escrever sobre isso?"; tem que ter um bom conteúdo já armazenado para poder começar a divulgar - "30 postagens serve"; tem que mendigar divulgação; receber vácuos; respostas negativas; respostas positivas seguidas de vácuos; ouvir elogios de pessoas que não leram de fato; ter leitores que vão simplesmente omitir o seu texto porque, de alguma forma, elas querem tomar posse dele só para elas - "mas eu queria espalhar mais a mensagem, só que eu também preciso desse leitor"; tem que se questionar se o que você escreve é realmente relevante. Isso porque você ainda nem sabe direito o que escreve e para quem.

Você também vai precisar administrar. Administrar as visitas, colher dados das pesquisas; consultar fontes; administrar seus horários. Você agora tem responsabilidades.

Você também nada contra uma corrente gigantesca de pessoas que vão simplesmente te desestimular de graça. Ou pior, vão se fazer de "só tô querendo ajudar" para minar a tua segurança quanto ao que você escreve.

Olha, é tanta coisa que só mesmo a possibilidade de converter tudo isso num texto pro próprio site que salva a gente.

Acho que volto a escrever sobre Naruto amanhã. Não sei.
Escrevo este texto comemorando os 10 anos de quando eu vi o primeiro episódio de Naruto, para o qual voltamos a escrever. Mas voltamos meeeesmo... pro início...
Antes de mais nada, eu gostaria de avisar que, assim como os nossos 4 últimos textos, ideias de fundo trabalhadas em ambos os textos do Pain serão pinceladas em outros textos sobre Naruto - como esse, por exemplo. Provavelmente, porque essas ideias são realmente base da série. Para citar um exemplo, tratamos do controle e aqui estamos, retomando o exato início. E lá estava ele...


O aspirante a Ninja realmente não tinha boas credenciais; era um vândalo, cínico, inábil em qualquer jutsu que tentava e forçava situações que chamavam atenção negativa pra ele. Do outro lado, estavam seus colegas extremamente ultrajados com a sua presença na classe e professores insatisfeitos com seu comportamento errático e o seu desprezo pelas regras e pelo controle. Enfim, era um plot clichê.

Em caráter de curiosidade, é muito interessante que, no anime, tenha havido o acréscimo da cena em que Hinata torce por Naruto e outra em que os figurantes do mangá que o depreciam e repreendem são substituídos por Shikamaru e Ino, pois isto serve de base para a posterior relação de reforço ou ruptura das impressões que os três tinham sobre o ninja.

Nos três primeiros capítulos, Naruto polariza com um personagem em cada: Iruka, seu primeiro professor, era extremamente intolerante a ele e também controlador - em contraste com ele, Naruto era visto como errático e indisciplinado; Konohamaru, por ser neto do Hokage (vejam que ironia) era o bajulado da vila, enquanto Naruto amargava o desprezo das mesmas pessoas - quando comparados, por mais parecido que fosse o seu comportamento, o neto do Hokage sempre levava a melhor, na opinião pública; Sasuke, ninja número 1, rende a Naruto, pelas opiniões, tanto de Kakashi, quanto de Iruka, o título de ninja número 1 ao contrário - fica também com toda a popularidade e é extremamente bajulado.

No primeiro capítulo, Naruto tem um desafio final: ser aprovado como ninja Genin e, para isso, ele precisa aprender a fazer um jutsu de clonagem. Para atingir esse objetivo, ele é "orientado" por Mizuki, um professor mais amigável, a roubar um pergaminho do Hokage para aprender um jutsu de clonagem mais efetivo e poderoso: o cobrado na academia criava uma ilusão de clonagem, o do Hokage criava realmente um clone físico que poderia, inclusive lutar, mas Naruto queria fazer vários clones. E conseguiu.



Mas, para além do seu sucesso com o jutsu de clonagem, Naruto aprendeu algumas coisas sobre as pessoas e sobre si próprio: 1) ele era o hospedeiro da Raposa de Nove Caudas, a Kyuubi - o monstro que destruiu a vila no dia do seu nascimento; 2) eram os tipos de autoridades com as quais ele lidou, neste capítulo; 3) o professor que posou de bonzinho e apresentou uma fala bajuladora, mansa, só desejava vantagens para si próprio - "eu falei algo que te agradou, agora faça isso"; 4) a pessoa que desejava dele o seu crescimento e amadurecimento o criticou no que ele realmente havia errado e, graças a isso, ele evoluiu; 5) Naruto estudou e aprendeu sozinho o jutsu de clonagem e não há nada a ser creditado a nenhum outro indivíduo; 6) o professor que desejava vantagens para si próprio tentou manipular o ódio de Naruto contra quem desejava dele o seu crescimento - e assim percebemos que é bom ter cuidado com o poder conferido a algumas autoridades, porque essas figuras podem ser irresponsáveis e levianas - figuras facilmente atribuíveis a um jovem de 12 anos que apresenta um mal comportamento, só que vindas de uma pessoa adulta, autorizada a pensar e decidir certas coisas; 7) a verdade e a razão não precisam ser insistidas e empurradas à força - em ambos os casos se repete uma situação em que a liberdade de quem ouve pensar por conta própria foi atacada e, desde já, o ideal de "fuja do controle", sobre o qual série se fincou por 700 capítulos, foi anunciado; 8) na prática, Naruto fortaleceu a própria liberdade ao interromper o ciclo de ódio que Mizuki queria propagar; 9) desde o primeiro capítulo, ele já era melhor que os seus dois professores.

Iruka, simbolicamente, entrega a própria bandana a Naruto e isso talvez signifique que, como eu apontei no #9, o novo ninja era realmente mais digno de usá-la do que ele próprio. Mas o capítulo acaba com ele ainda achando que tinha mais coisas a ensinar a Naruto do que aprender com ele, como ele voltará a fazer [e se frustrar] nas próximas oportunidades.

Tem gente que realmente não aprende.
As vezes o controle pode ser também uma ferramenta de alguém que teme a solidão, sabe? 

Uma outra amiga minha, numa tentativa realmente nobre de defender narcisistas manipuladores, proferiu a seguinte frase: 
As pessoas têm coisas ruins no kokoro [coração].

Recapitulando: o Alphabet Boy, ou O julgador, é um especialista em regras, mas um desaparecido em atitudes, certo? O que podemos inferir disso: tem um certo descomprometimento consigo mesmo nisso. Digo, por mais que ele faça algo para melhorar e evoluir, todos esses esforços são direcionados às regras. Sem ter algo de verdade pelo que se esforçar, se volta para [ou contra] outras pessoas.

Do outro lado: O autocrítico é bastante talentoso e age com frequência, mas, por algum motivo, não possui um bom juízo, não é? Ele, portanto, se deixa levar por alguém que se dispõe a tomar decisões por ele.

Então temos algo em comum entre os dois - uma espécie de metade da laranja, ou algo do tipo.

À parte da sociopatia ou psicopatia, boa parte dos julgadores não são maus - são covardes, no máximo. Eu digo covardes, pois se ater as regras e se conformar em repetir o que já foi testado é uma forma de se manter sempre dentro do esperado e não enfrentar o julgamento. Os autocríticos, por sua vez, também não são vítimas indefesas, muito menos "bonzinhos" - são, talvez em beem menor grau, covardes também. Eles também esperam usufruir do correto e o farão eternamente, temendo o julgamento dos julgadores - viram reféns desse medo de pensar por si próprios.

No fundo, eu vejo, em ambos, um pedido de socorro. Ambos tem uma questão mal resolvida. E ambos encontraram um no outro uma forma de resolver essa questão. O problema de ambos talvez seja o medir a própria força. Já pararam para pensar em como essas coisas ruins comprometem a habilidade de algumas pessoas cativarem outras e que as habilidades absorvidas dos outros, nas mãos delas, só conseguem produzir um cativeiro?


O caso de Gaara pode ser mais aprofundado e discutido em outra oportunidade, mas o seu exemplo é um tanto claro: o aperto e a pressão sempre foram abraços mal dados. Voltemos pro julgado[r].

Se o autocrítico não tem juízo e o julgador não tem autocrítica, é um tanto possível que o julgador, desprovido de autocrítica, veja como reforço positivo o comportamento de conformidade da autocrítica. Em outras palavras, ele é um covarde e um conformado, enquanto o autocrítico tem uma certa autonomia ao agir; então fazê-lo se sujeitar é um reforço à covardia do julgador - ele se sente mais certo em seu conformismo e, de quebra, anula a possibilidade de a diferença positiva do autocrítico o incomode. O autocrítico, por sua vez, pode também querer se ver na razão, por meio da aprovação do julgador - que sempre está a condenar a todos. Se a gente for parar pra pensar, não é muito diferente do que aconteceu aqui há mais ou menos 500 anos, em que nossos nativos trocaram seu ouro por espelhos e seus costumes por uma religião fundamentalista - uma forma de tentar se enxergar pelas ferramentas do outro. É uma relação predatória para ambos os lados - apesar de eu não estar aqui pretendendo, nem por um segundo, relativizar as responsabilidades e consequências.

Contudo, o autocrítico um dia vai colher também os frutos do bem e do mau que semeou e, talvez nele, descartará o julgador enquanto tal. A partir deste momento, o julgador precisará enfrentar o próprio julgamento e isso torna o seu jogo e as substituições das cobaias meras formas de adiá-lo. Eles se assimilaram, o que quer dizer que o autocrítico aprendeu a julgar por si próprio e o julgador adquiriu autocrítica - com a qual ele certamente não está acostumado.

Uma fábula agora: Maria foi presa na casa da bruxa, certo? E, com isso, foi obrigada a alimentar o irmão para saciar a fome da Bruxa, certo? Voltemos ao início da história, quando eles ainda estavam perdidos diante da casa de doces:

Se o erro de Maria foi grande, ao ser atraída pelos doces da casa e acabar confiando em uma sequestradora e seu cativeiro, qual foi o tamanho do erro da bruxa?

Não foi ela que abriu a porta para a sua própria assassina e a deixou entrar?
No meio da escrita desses textos em série, eu acabei me deparando novamente com a música de Melanie Martinez que intitula esse texto e, vejam só, tem todo o jogo do manipulador descrito de uma forma que boa parte desse texto é só tradução da letra.


Com a sua reguinha do alfabeto, o julgador está sempre medindo a vítima e tentando apagar o que foge ao seu alcance. Os aviõezinhos vão sendo preparados para minar a segurança da autocrítica. Ele a derruba e a reconstrói à sua maneira, num jogo de tentativa e erro, para que a concepção dela de si própria seja tão atrelada ao julgamento dele que ela aceitará qualquer crítica sua como verdade incontestável. E isso é só o começo do jogo.

O julgador é especialista em regras; tem referências; está acima do bem e do mal. Curiosamente, a sua maior e talvez única arma é a boca - na prática, não consegue fazer muita coisa pela autocrítica e talvez seja esse o ponto: ela faz as coisas, ele se engrandece no mundo dela falando de si próprio e se admirando ao infinito de modo que ele pense por ela e ela faça as suas vontades. Ele não se vira sozinho.

Na música, Melanie fala de uma troca interessante - e mesquinha - que acontece: o alphabet boy oferece uma maçã como desculpa, mas em outro momento é visto contando o seu dinheiro enquanto trata a autocrítica como uma criança. Crianças não contam dinheiro, sabe?

Se não ficou claro, o julgador precisa de alguém para explorar. E as cordas do seu joguinho são as fraquezas que ele aos poucos arranca da autocrítica, ou ela própria entrega de bom grado, já que, como dito no segundo texto, ela projeta nele alguém sadio e confiável.

E se o que não ficou claro é o porquê do "mesquinha" é que a relação se sustenta em cima do sacrifício completo de um dos lados, enquanto o outro lado usufrui dos benefícios, mas nunca está disposto a arcar com os prejuízos. Um exemplo, quando a autocrítica está mal, depois de já ter sido conquistada, todas as suas queixas são diminuídas, o que já indica qual é a sua real importância na mão do seu julgador. Ou mesmo o fato do que lhe é oferecido em troca dos seus serviços prestados - seja uma maçã ou um elogio genérico e mal dado que mal serve para levantar a autocrítica que já está muito embaixo, mas não tem confiança o suficiente para buscar compreensão em outro lugar.

O elogio, em alguns caso pode ser o que se disse em "Dividir e Conquistar": um rótulo. E é justamente o fato de ele segregar a pessoa dos demais que gera essa desconfiança. Afinal, se faz acreditar que só o julgador a entende. E, de brinde, condiciona a pessoa a repetir esse comportamento para manter o rótulo, uma vez que 1) a autocrítica ocupa um local pequeno na vida da julgadora; 2) ela é isolada - ou se isola - das outras pessoas que podem desenvolver os seus outros lados [isso para a julgadora é um perigo]; por conseguinte, 3) perdendo essa pequena importância na única pessoa que lhe restou, ela perde tudo.

E como isso acontece? Bom, é uma variação do que falamos no primeiro parágrafo: tentativa e erro. A autocrítica recebe o primeiro "aviãozinho", muda, recebe o segundo, muda, recebe o terceiro... não demora muito a os aviõezinhos começarem a vir de direções opostas - digo, críticas que dessa vez contradizem outras dessa mesma pessoa. Exemplo: A estava certo, mas é tido como ERRADO por motivos B e C: pensa "realmente, B e C fazem sentido, mas não negam A", mas vai pro B e C; B e C agora está errado, volte para o A. Nesse meio tempo, Alfabeto vai se expandindo com ajuda da própria autocrítica que, como já falamos, se abre e mune o julgador com mais aviõezinhos.

Acho caso não é simplesmente estar certo ou errado, mas ser alvo constantes de críticas que chegando num limite começam a se repetir em circulo. E círculos cercam. Sufocam. Principalmente se todas as suas tentativas são desconsideradas ou desvalorizadas. Receber uma maçã em troca de um esforço colossal, ou mesmo ser comparado a alguém que, supostamente, fez mais, mas é só carne fresca, é um indício do valor que o seu esforço recebe.

Vou finalizar o texto com um mimetismo animal:

Deixando de lado o exemplo óbvio de uma gaiola – onde o bicho fica preso e encurralado por todos os lados –, mas vocês já viram como os gatos derrotam os ratos? Eles os batem para várias direções, mas os mantendo ali dentro do alcance das suas patas. Quando os ratos entontam, eles devoram, ou jogam fora e vão procurar outra coisa para se distraírem.
Vamos reconhecer uma coisa, tem gente que nunca parece estar satisfeita com nada.

Eu acredito válido insistir um pouco na hipótese do superego alheio. Mais ou menos assim, incapaz de criticar a si própria, ou mesmo temente à possibilidade e, junto com ela, a rejeição, tem gente que se especializa em regras, normas de conduta e moral e com isso se munem pra uma guerra que só existe na cabeça delas. Talvez o medo de cair no erro seja tão grande que elas acabam se incumbindo [in]voluntariamente do papel de fiscais.


Segunda hipótese, narcisismo. É bem capaz de alguém se especializar tanto sem si próprio que acabe não enxergando possibilidade de acerto para além dos seus próprios paradigmas e crenças. E esse paradigmas são tão inculcados que essa pessoa realmente se crê dona da razão e única pessoa certa o suficiente. Na decepção que o mundo real as causa, vivem em insatisfação.

16/02/2018: Arriscando ainda mais alto, não foi pelo fruto do conhecimento do bem e do mal que Adão e Eva sucumbiram? Veja bem, eu não estou condenando o conhecimento, e sim o julgamento de valores que não reconhece nada além desses dois polos. Talvez o julgamento seja um poder realmente divino cuja dimensão e consequências sejam pesadas demais para o ser humano. Exemplificando, todo o julgamento proferido a outra pessoa permanecerá na mente do julgador e, sendo maior o número de condutas julgadas, menor será o seu campo de ação, uma vez que a sua moralidade também será cobrada - dado o fato de ele também ser humano. Então é um pequeno prazer a um custo muito alto para uma pessoa pagar.

Em ambos os casos, o trocadilho do Super Ego é válido, no sentido de criar para si próprio um grande EU que subjuga ou destrói tudo o que se detecta como ameaça. Porque o diferente é, sim, uma ameaça iminente a todos. O problema é que tipo de ameaça esse diferente representa.

Voltemos ao caso dos dois indivíduos citados na postagem anterior: o autocrítico e o julgador.

O julgador não é nada além de um moralista ambulante, tudo precisa passar pelo seu exame. Para o autocrítico, focado no desenvolvimento pessoal, é muito difícil perceber a ofensiva e encarar o moralista como tal. Existe também algo que acaba unindo ambos: o medo da rejeição.

A partir daí, ambos os lados permanecem interpretando papéis, o julgador servindo de superego para o autocrítico, numa posição que dificulta cada vez mais pra si próprio o fim do joguinho.

No fim, creio que exista aí um espelhamento: o autocrítico sadio projeta no julgador um crítico sadio e o julgador doente projeta no autocrítico um réu.

É bem óbvio pra qual lado a corda vai arrebentar. Mas isso não implica que o autocrítico seja necessariamente uma vítima: já imaginaram o que tanta insegurança de si próprio esconde, em alguém que entrega as próprias cordas ao outro com tanta boa vontade?

16/02/2018: Por falar em fruto proibido, o Death Note possuía uma regra interessante: o usuário não irá para o céu nem para o inferno. Daí fica essa dúvida, para onde vai a alma desse condenador?
Antes de mais nada, eu gostaria de avisar que escrevo isto fazendo o possível para não disseminar ódio ao lado criticado. Peço perdão caso isso ocorra.
É uma lógica assimétrica batida: pessoas centradas, interessantes, bem-humoradas, com boa formação acadêmica, boas de papo, fluentes em outros idiomas, cheias de talentos e habilidades - entre tantas outras coisas - vivendo em baixa autoestima e alta autocrítica, enquanto as chatas, julgadoras, rabugentas, moralistas, fofoqueiras, hipócritas, desagradáveis e inúteis completamente cheias de si.


Uma vez uma amiga disse que dói nela ver gente se depreciando como se fosse um inútil de quarenta anos que mora ainda com os pais e não sabe fazer nada da vida. Mas ela foi além.

Um tanto consciente da raiz do quadro, ela se arriscou a falar que era possível que talvez a tal pessoa que não se sentia boa o suficiente o fazia porque tentava agradar a alguém a quem de fato ela nunca era boa o suficiente.

Não satisfeito, fui eu mesmo investigar adiante essas relações e - vejam que interessante - o (a) bonitão (tona) é quem na verdade não é bom o suficiente. Pretendo com isso afirmar uma verdade absoluta? Não. É uma descoberta a partir de da observação de uma meia dúzia de casos.

Mas a verdade é não apenas a mais autodepreciativa era um ser humano muito mais evoluído como eu me atrevo a dizer que a outra simplesmente não valia o chão que ela pisava.

Acho que talvez justamente pelo fato de ser mais evoluída, a autodepreciativa encarava a crítica da julgadora como construtiva - uma parte do seu processo de amadurecimento. Ledo engano.

É justamente a abertura da autodepreciativa para o contraditório que é vissta como brecha para a julgadora - aliás, vamo chamar pelo nome correto: infeliz - a infeliz despejar a sua amargura em alguém. A outra para ela é uma presa, uma vítima. De peito aberto, recebe descargas e mais descargas de abuso verbal, seja em forma de gritos, xingamentos rancorosos, insultos, julgamentos antipáticos, ou mesmo em azedume passivo agressivo, como piadas, banalização, ou qualquer outro tipo de ofensa disfarçada - geralmente, com um sorriso. E ela encara isso com a receptividade de quem realmente não reconhece - ou nem mesmo conhece - esse tipo de abuso. Principalmente quando parte de alguém em posição de autoridade.

A impressão que dá é a de que realmente essa autoridade vem de alguém que se engrandece não a partir do amadurecimento e da consciência, mas da exploração do superego [dos outros]. O outro lado, autodepreciativo, dificilmente vai enxergar a pequenez da autoridade com os olhos cerrados de tanta culpa para carregar e tantos problemas que não são de fatos seus para serem resolvidos.

Mas isso a gente pode continuar em outro texto.
Então sobrou pra Naruto derrotar Pain, né isso?

Encurtando toda a história, a vila da folha foi invadida, já que o líder da Akatsuki precisava do Jinchuuriki da Kyuubi. Os Pains se dividiram, procurando-o, mas apesar de toda a vila estar comprometida a não entregar a sua localização ao custo da própria vida, se preciso – como foi o caso de [spoiler] e [spoiler], o próprio Naruto deu as caras para se acertar com ele pessoalmente.


Antes da luta, ele recebe informações da divisão de inteligência da folha, que estudou um cadáver enviado por Jiraiya [eles também haviam, com ajuda do próprio Naruto, decodificado a mensagem de Jiraiya]:

Todos eles eram, na verdade, cadáveres;

Eles eram controlados através do chackra transferido através de bastões perfurados por todo o corpo como piercings;

O verdadeiro (Nagato) os controlava à distância. Como era uma transmissão, ele se localizava num local alto, afastado do campo de batalha, de acesso quase impossível e protegido pela sua companheira, Konan.

Eis o sádico jogo do Ventríloquo: Nagato e Konan mantinham 6 pessoas reanimadas por energia, infligindo pequenas dores esporádicas que, por razões óbvias, aqueles cadáveres não sentiam mais. Mas todos eles, antes daquilo tudo, possuíam as suas próprias histórias que, ao contrário dos seus manipuladores e os próprios manipulados, o autor da história com certeza não esqueceu. Por essa razão, algumas cenas suas pré-Pain foram mostradas para que o leitor, assim como Jiraiya, percebesse que todos eles estavam se comportando de forma diferente. E, também por essa razão, Naruto chegou para enfrentar um inimigo que, dividido em seis, arrancou diversas informações a seu respeito e o colocou em desvantagem.

Eis, também, a tática de defesa mimética da vila da folha: a divisão de inteligencia da vila da folha distribuiu tarefas para cada um dos seus membros, de modo que eles arrancassem informações do Pain e compartilhassem essas informações uns com os outros. Percebem? Ambos os lados agiram de formas semelhantes de inteligencia coletiva, compartilhando a visão e o raciocínio pra que, então, entregassem essas informações para os ninjas que iriam combater o inimigo. Assim, foi possível que Naruto o enfrentasse em condições de igualdade.


A relatividade acaba onde começam os princípios de cada lado: um deles está trabalhando em prol da propagação do ódio, do ataque e do controle - inclusive, é exatamente aí que se esvazia o discurso da paz mundial - o outro lado está trabalhando em sentido de defesa e proteção das liberdades da própria vila e, principalmente, de Naruto - principal alvo e requisito do seu plano.

O controle por meio da dor fica mais óbvio na cena em que Naruto – único ser vivo da cena – é atingido pelo bastão e agoniza com aquela descarga de energia. Ele é paralisado, mas salvo por Hinata – que aparece de última hora para libertá-lo do transe, retribuindo o mesmo feito a ela, 3 anos antes, na luta das preliminares contra Neji.


Bom, mais uma vez, estando a fim de assistir: os episódios que comprimem essa batalha são os 157-169 e/ou volumes 46-48, se preferirem o mangá.

Enfim, Naruto derrota os Pains e vai atrás do Original para conversar - pq, né? Ele ama conversar e converter todo mundo. Chegando lá, ele percebe que a descoberta de Jiraiya de que “O Verdadeiro não está entre eles” iria muito mais além do que ele imaginava.
Acho que é de senso comum entre quem acompanhou Naruto que Pain foi um dos maiores divisores de águas de toda a série. Se não o maior.

Foi precisamente a partir da sua aparição que as batalhas ninja tomaram uma proporção e uma complexidade muito maiores. Além do mais, foi a partir dele – e, posteriormente, de Madara, mas ele é só outra face dessa mesma moeda – que toda a história anterior precisou ser reorganizada para que, assim, pudesse prosseguir. E, se a gente parar pra pensar, lá no fundo, isso aconteceu pelo poder que Pain tinha nas mãos: o controle teleguiado.


Antes de a gente chegar lá, vou manter um pouco o suspense e mudar o foco para a batalha dele contra o seu antigo mestre, Jiraiya – e lembrar de como esse último sucumbiu ao ex-aluno por estar completamente alheio às habilidades dele.

Jiraiya sabia que, Nagato, um dos seus ex-alunos possuía um desses dons raros nos olhos. Esse era chamado de Rinnegan. Mas o que o surpreendeu no reencontro com ele, anos mais tarde, foi encontrar esses olhos não somente no seu outro aluno, Yahiko, como também em outros cinco seres humanos. Todos ruivos, tal qual o seu líder.

Esse líder, diga-se de passagem, é tido na sua vila da chuva como Deus, e a sua colega, Konan, um anjo seu. Isto porque ele livrou a sua terra de uma antiga praga e protegeu a mesma das guerras que a assolavam. Por outro lado, essa terra não tinha a menor consciência do tamanho da alienação à qual fora submetida com isso; seja do mundo exterior, seja do seu próprio líder – sempre precedido pela sua reputação e pelos boatos ao seu respeito. Mas foi seguindo a pista desses boatos que Jiraiya se infiltrou naquela vila que, mesmo depois de salva por um herói que eliminou “O seu maior carrasco” e prometeu guiar o mundo à paz, continuava melancólica e incapaz de produzir nada que não fosse tristeza e chuva.


Jiraiya não podia sustentar a sua felicidade em ver o ex-aluno bem desenvolvido e mais maduro por muito tempo – pois aquilo implicaria baixar a guarda. Aquilo não era um reencontro, mas uma batalha. Só que, durante toda essa batalha, permaneceu um incômodo quanto ao comportamento de Yahiko: como alguém que sempre fora tão feliz, disposto e animado estava agora amargo, rancoroso e apático? Ele estava realmente confuso quanto a quem era quem, mas, como eu falei, aquilo era uma batalha. E, felizmente, ele conseguiu se lembrar disso a tempo.

Profundamente “dolorido” pelo ciclo de ódio ao qual a sua terra fora condenada, o ex-aluno de Jiraiya montou uma organização pequena, de poucos membros, sendo uma parte deles advinda de passados desumanizadores, e a outra constituída de pessoas habilidosas, mas sem perspectiva de vida. Todos devidamente envenenados pelo seu propósito particular.



Ele próprio, na verdade, era seis. Só que o maior detalhe deles – e isso os tornou “um” vilão letal para Jiraiya – é que, dotados de habilidades diferentes, mas complementares, eles compartilhavam a visão.

Isso implicou para Jiraiya constantes frustrações das suas estratégias de batalha, pois a sua localização e vulnerabilidades eram informações que estavam sempre sendo compartilhadas por seis inimigos que estavam, de algum modo, conectados uns aos outros. Diante disso, eu não preciso dizer que a única saída do ninja foi se preparar para a morte. Contudo, ele não o fez gratuitamente, mas com uma última estratégia acompanhada de uma aposta: ele se comprometeu a descobrir o segredo desse inimigo, codificar esse segredo e passá-lo, através de um livro escrito por ele mesmo, para o seu pupilo posterior, Naruto.



E esse segredo era: “O verdadeiro não está entre eles”.
Eu tava vendo o clube dos cinco, sabe?

É um filme dos anos 80 muito legal com uma porção de questões que parecem que são apenas adolescentes mas que, olhando bem, perseguem a gente bem mais adiante - não à toa, o próprio filme trabalha o papel dos pais nessas questões.

O enredo é bem simplezinho: 5 menines estão em detenção; eles são aparentemente super diferentes uns dos outros e se encaixam perfeitamente nos arquétipos mais conhecidos do colegial, que sããão: "Bonitão", "Princesa", "Nerd", "Delinquente" e "Estranha" e, talvez por isso mesmo, deverão escrever um texto de 1.000 palavras sobre o que pensam sobre os outros.


Alguns detalhes são bem interessantes, apesar de bem clichês - aliás, o maior problema dos clichês é 1) com a devida atenção e deixando de lado justamente o senso comum, eles são muito interessantes justamente porque 2) eles nos contam verdades. Vamos aos detalhes:

1) O principal antagonista é o diretor da escola (risos) que posa de paladino da moral, mas, posteriormente acaba denunciando a própria hipocrisia/canalhice;

2) Eles são supervisionados pouquíssimas vezes, mas isso não implica que não se sintam vigiados;

3) Antes da detenção, eles não se falavam e, durante boa parte dela, não confiam uns nos outros. Eu arriscaria apontar como motivo o fato de eles serem constantemente bombardeados com ideias de inveja e competição. A comparação, por exemplo, é um hábito constante de autoridades de diversas áreas e uma fonte dessas ideias;

4) A imagem que eles lutam a adolescência inteira para construir e manter é constantemente questionada, negociada e, principalmente, ameaçada. Se eles iniciam o primeiro contato justamente se valendo dessa máscara, terminam se entregando e se descobrindo surpreendentemente parecidos. Colocando de outra forma, é como se aquela aparência diferentona de cada um deles fosse sustentada por uma variação dos mesmos sentimentos em relação ao mundo, aos pais e uns aos outros - eles se sentem pressionados e, por isso mesmo, a imagem é muito mais um motivo de martírio do que fonte de satisfação consigo mesmos.

No fim, eu achei incrível como foi trabalhada essa vigia em cima dos mais jovens que só faz com que eles percam quase por completo a confiança neles mesmos. Não só isso, como "o sistema" lucra com essa segregação.

Infelizmente, a preparação que essas crianças recebem é para uma sucessão de abusos a seguir, nas mãos de quaisquer que forem as autoridades e suas vontades distorcidas. Predadores sempre acabam se unindo e se aproveitando dessas vítimas, arrancando delas o que bem quiserem [trabalho, segredos, diversão, prazeres sádicos, a alma...].

Do outro lado, a própria situação alimenta nessas vítimas a desconfiança em si próprias e nos outros, o que acaba as privando de situações como a retratada no filme e evitando que elas entrem em contato com pessoas que poderiam ajudá-las a vencer aquela situação.

O mais cruel de tudo isso é que, muitas vezes, essas pessoas são as mais próximas - às vezes de convivência diária. Só que essa convivência se limita a tratar dos interesses dessas autoridades ou de quaisquer coisas que não ameacem esse estado. É bem triste.
Alerta: o texto a seguir é de cunho motivacional e abarca várias ideias em torno do tema principal - a franquia Tekken -, sem aprofundar, de fato, em nenhuma.
First things first, não é só um joguinho de luta - ou um jogo de lutinha [joguinho de lutinha é muita forçação de barra, também]: nesse caso, a ênfase fica a cargo do que o contra-argumentador procura diminuir (se é um não-jogador menosprezando os jogos ou um jogador menosprezando o gênero de luta).

De um lado, ainda existe o estigma do jogo como diversão fútil ou hábito reprovável, sendo que já existem muitas pesquisas em diversas áreas que tratam como não só do jogo como forma de educação lúdica, que inclusive contribui para a superação de N obstáculos - que vão do TDAH até à Depressão, para citar alguns exemplos -, como também do conteúdo rico que os jogos podem apresentar [já sentaram pra conversar sobre mitologia grega com um jogador de God of War?].

Do outro lado, existe a depreciação do gênero específico de luta que possivelmente se deve ao molde dos seus padrões por estes outros gêneros. Nesse caso, é bom ter em mente que os diferentes gêneros oferecem níveis e formas diferentes de diversão e de recompensar o jogador. Certas justificativas pormenorizadas de como o MMORPG pode vir a contribuir com a sistematização pessoal do jogador mais do que o jogo de luta, por trabalhar com objetivos de longo prazo, são até válidas, só é preciso ter cuidado para não pensar isso de uma forma de inferiorização total do segundo gênero.
Um lembrete: o hábito de verticalizar gosto não parece saudável pra ninguém. 
Dito isso, entendamos que priorizar a troca de experiências e, principalmente, se entender como um entre outros [horizontalmente] é muito mais funcional do que usar o desprezo por algo como justificativa para permanecer sem conhecê-lo. Dito de outro modo, é muito mais produtivo ter a abertura para escutar o fã de cada gênero, cada mídia, de cada qualquer coisa, do que chegar impondo opinião - principalmente se for antes levar em conta o embasamento dessa sua opinião.


Iniciantes têm, sim, grandes chances contra intermediários: como os programadores se esforçaram muito para criar um jogo acessível, não são raros os momentos nos quais uma pessoa que nunca pegou num joystick na vida desce o braço e vence alguém que já tem uma certa prática. Isso pros ~jogo-de-lutinha~ é mais má publicidade porque, quando o iniciante é um deles, algumas vezes, fica a impressão de que o jogo é bagunça e apertar qualquer botão é procedimento único - quando o caso é apenas eles serem maus jogadores. Mas é aí que os Jogadores Avançados entram em cena; são eles que conhecem bem a mecânica do jogo e sabem dar o show do qual o jogo é capaz.


As lutas dos Avançados são um espetáculo: eles conhecem muito bem os golpes - e, nesse quesito, o jogo dá muito suporte, com personagens que chegam a mais de 100 combinações; possivelmente, dominam vários personagens; têm boa defesa e desviam bem; sabem fazer uso do cenário, ou seja, desenvolvem boas estratégias de batalha; quando se temem mutuamente, geram cenas tensas, onde os personagens passam segundos só se encarando e aguardando oportunidades [são cenas lindas mesmo]; conseguem fazer, conscientemente, reviravoltas absurdas e inacreditáveis mesmo - e repetir o feito em outras partidas. Somando tudo isso, não seria exagero dizer que as partidas se tornam extremamente imprevisíveis.


Lado importa - e muito: a despeito do título do texto - que eu usei justamente como antítese - não é de unilateralidade que se fazem jogos de luta. E isso confere a eles uma carga dramática fantástica. A interpretação imediata que podemos fazer é que estar do lado direito ou esquerdo inverte a sua leitura do cenário e a direção dos golpes [e dos botões direcionais, lógico]. Mas pensem o seguinte: poucos gêneros nos permitem experienciar a alteridade como o jogo de combate; os jogos, no geral, te oferecem apenas a perspectiva do herói ou, quando no máximo, um anti-herói feito Kratos - mas todas as más atitudes dele são moralmente amenizadas ou até justificadas. Sendo, em um jogo, imersão uma coisa muito importante, existe um significado forte em você se colocar no lugar de oponente. Simplificando, num jogo de luta, você não é o herói, é um oponente tanto quanto o seu oponente. E isso relativiza a sua perspectiva de oposição.


Eu, por exemplo, sempre evitei de jogar com Bryan por uma cena de vitória dele [não achei em gif, então vai outro semelhante] que eu considerava chocante e exagerada: ele sentava no oponente derrotado e batia muito no rosto dele, rindo - isso contra um personagem que eu gostasse muito, ou qualquer personagem feminina, era algo que eu simplesmente não aguentava ver. A depender do seu grau de sensibilidade, é difícil ver seu personagem - quem te representa dentro daquele mundo - sofrer algumas agressões extremas.


Personagens femininas brigam muito: não sei se vocês sabem, mas o jogo de luta parece ter sido o primeiro a apresentar uma mulher jogável - precisamente, Chun Li, em Street Fighter II. Ainda na questão da alteridade, você pode perguntar a qualquer menina o que significa para ela ter uma mulher dentro do jogo a representando e provavelmente ela te sinalizará o quão importante é se sentir representada; significa a diferença entre ser sujeito ou o predicado de outra pessoa - que é o caso dos NPCs, dentro de um jogo. Já pararam para pensar nisso?

Por outro lado, existe também o jogador homem controlando uma personagem feminina - sendo um deles, você ouve muitas ofensas pesadas ao ser feminino no geral. Porém, isso também dá margem para pensar até que ponto a socialização das crianças é pensada de modo a podar as suas escolhas, ditando isso como coisa de homem e aquilo como coisa de mulher, e, por conseguinte, gerando um menor número de lutadoras, na vida real, e o seu uso como item decorativo, nos jogos eletrônicos.

O que a gente aprende com tudo isso é que tanto, na realidade, é de suma importância combater essa misoginia institucionalizada, quanto, em se tratando de ficção, uma franzina de 16 anos tem total capacidade de descer o braço num homem maior e mais mais velho. E isso, a despeito de algumas problematizações de critério seletivo, pode estar bem mais próximo da realidade do que um apocalipse zumbi ou uma série de dragão, por exemplo.


Há espaço pra comprometimento em qualquer lugar: ao contrário das outras mídias audiovisuais, o jogo funciona como um motor, sendo eventuais marasmos muito menos defeito do jogo do que inabilidade do jogador. Nesse caso, se manter alienado a maus desempenhos pra julgar o jogo é simplesmente se manter ignorante por opção e cultuar essa ignorância. Ninguém é obrigado a conhecer nada, a menos que queira emitir uma opinião com propriedade. E é nisso que precisamos voltar às lutas dos avançados, por elas estimularem muito a gente a melhorar - e isso é valido em qualquer outra coisa: coisas bem feitas, geralmente, nos estimulam.



Antes de pôr as minhas mãos no Tekken 6, eu assistia muito aos vídeos do jogo. Esse em questão [só é preciso assistir à primeira luta - os primeiros 3:43 min] foi o responsável pelo meu maior vínculo com o jogo atualmente: Lili. Ela é uma personagem super versátil: tem muitos golpes rápidos que não se apoiam muito em membros superiores ou inferiores [geralmente o jogador se prende muito a chutes ou socos e desequilibra entre os dois]; tem contra-golpes igualmente rápidos [exemplo: se ela se abaixa, já dá pra levantar sentando a mão na cara, após ter desviado, ou seja, pegando o oponente com a guarda baixa; ou ela pode, como um grupo seleto de personagens, simular baixar a guarda e agarrar o oponente, durante o golpe dele]; tem combos muito fáceis, daqueles que não deixam o oponente cair; fora que ela tem uma personalidade arrogante, badass, que combina referências mais clássicas, como o ballet, com elementos mais urbanos, como a luta de rua.

Enfim, ela é ótima e hoje eu vejo que esse vídeo nem faz jus à capacidade dela: o jogador [ou a jogadora] se defende muito mal, usa golpes de longa distância perto demais, se repete muito; uma infinidade de vacilos que eu creio que hoje, 7 anos depois, revendo esse vídeo, ele mesmo deve estar criticando - isso serve de exemplo de que expertise serve inclusive pra você criticar as suas referências.


Sometimes, fazer algo é um pouco mais importante do que refletir sobre: eu acho que é indiscutível que teoria e prática andam juntas - quem não concorda com isso precisa acordar pra vida -, mas mesmo sabendo disso, as vezes a gente prefere, involuntariamente se ater a inércia [obrigado, Evans ;)], sabendo o que a gente tá fazendo de errado. Isso leva a uma discussão super pertinente que eu vou precisar resumir: às vezes, a despeito do tal marasmo eventual ou persistente, se prefere prosseguir fazendo as mesmas coisas por comodismo - deixar o familiar se sobrepor ao desconhecido por N motivos -, sem, é claro, deixar de reclamar. O senso crítico as vezes é ótimo, mas não condiz com as atitudes e isso trava muita gente - muita gente mesmo. Pra dar um exemplo imediato e sem fugir do assunto, muitos jogadores se acomodam a meia dúzia de golpes de um único personagem, quando este lhe garante vitórias, tornando as partidas monótonas, abusando do jogo e [ou “porém”] se mantendo naquele quadro maçante por horas - aliás, muito mais tempo: uma vida inteira.


A situação é minimamente agradável, mas soa melhor do que tentar algo e dar errado. Quando questionado, o interior trabalha de forma milagrosa pra justificar a permanência naquela situação: de repente, o quadro passa de “chato” para “ótimo”; ou a arrogância entra na jogada, levando o sujeito a fazer mal as coisas com uma ironia simulada, pra não admitir que, a curto prazo, o seu esforço não trará uma vitória imediata e, claro, dar a si próprio a ilusão de escolha; em casos de vitória, a situação é um pouco mais complicada, pois a vitória disfarça imperfeições que uma derrota ajudaria a expôr e, francamente, o jogo dura mais do que os 3 segundos do “You Win”, então basear toda uma experiencia de jogo em momentos de vitória é uma perspectiva um tanto pobre ante a satisfação plena que uma mudança de perspectiva pode gerar. Diante disso, vou precisar citar essa frase da Mary Shelley:
Nothing is so painful to the human mind as a great and sudden change.
Nada é tão doloroso à mente humana quanto uma grande e súbita mudança.

Às vezes, é preciso que a vida te passe uma rasteira pra sinalizar que tem algo errado, inclusive pra que você aprenda a se abaixar e defender da próxima. Acontece que, naturalmente, teu cérebro começa a criar escudos pra se prevenir: algumas pessoas se fecham para as críticas, não param pra escutar; outras decidem agir de forma agressiva; ou, em alguns casos, como já descrito, algumas pessoas se forçam a enxergar pontos positivos nessas situações, da mesma forma que o pessoal que sofre da Síndrome de Estocolmo simpatiza e até defende o sequestrador, na tentativa de amenizar o próprio quadro. Apática e acomodada, muita gente desiste do jogo por causa disso.


São vários os fatores que te lev[ar]am à derrota: foi, na verdade, dessa seção que surgiu o título do texto. Geralmente, a gente tende a encarar as coisas de uma forma muito simplista; faz de um emaranhado de causas que compõem os desdobramentos das situações uma questão de ismos - ideologias que se embasam numa causa só como culpada da história [culpa já denota moralismo, por exemplo]. Disso surgem comentários como “foi por isso que…”, “você só pensa dessa forma porque…”, ou “é porque você joga há mais tempo que eu” - fica tudo numa questão de melhor ou pior, de um único fundamento; unilateral. 

O problema com essas justificativas não é estarem erradas, mas atribuir a elas a única causa de uma derrota. No jogo, existem uma porção de golpes disponíveis, defesa, timing, ansiedade, tranquilidade demasiada, desatenção, estado de espírito, altos vacilos e sorte, também, e todos esses elementos desempenham uma responsabilidade em tudo o que está acontecendo. Isso implica perceber que você pode, sim, ser o principal responsável pela sua derrota, mas não para apelar para uma ironia imparcial de que só não venceu porque não quis.


O jogo não acabou até que se esgote o HP [life, pros que sacarem o trocadilho] de um dos dois ou o tempo: como na discussão dos lados, a leitura imediata a ser feita é que se mantenha o foco até que se tenha, de fato, perdido a batalha - isso não é algo que dê pra ser concluído antes do tempo final e é até responsável por grandes reviravoltas nos últimos momentos. 

Diante de tanta porrada que o oponente te dá, é possível virar o jogo lindamente e dar um rumo totalmente imprevisto à "partida". Há sempre espaço e recursos para uma reviravolta - e isso abre espaço para o comprometimento, entre outras incidências. Vou deixar vocês com mais uma das reflexões com selo Shelley de qualidade - Percy, dessa vez, e de novo em inglês:
It is the same!—For, be it joy or sorrow,
    The path of its departure still is free;
Man’s yesterday may ne'er be like his morrow;
    Nought may endure but Mutability. 
Ano novo tá aí pra isso também. Aproveitem a chance e aprendam inglês ou traduzam o poema por conta própria. Não sou obrigado.
Uma das minhas primeiras inquietações a respeito de “Jogos Vorazes” foi a falta de foco nas críticas; sabe-se que estão criticando a sociedade, de modo geral. Mas essa coisa de foco se torna um problemão na hora de analisar. Eu cheguei até a me perguntar se não era eu enxergando coisa demais, mas aí me deparei com a crítica do Pablo Vilaça sobre o primeiro filme e ele tratou da mesma coisa. Já é um reforço, né?


Pra vocês terem uma ideia, no texto anterior, chegamos a tratar das noções de política que a autora empregou nos livros, das implicações em se optar por uma protagonista feminina [assunto que acabou sendo deixado pra outra hora], discutimos os significados dos jogos e os vários tipos de opressão, ainda chegamos a comentar sobre a visão maniqueísta das sagas famosas no geral e como essa franquia lidou com a vilania como um conjunto de responsáveis e, por fim, como tributos tornam-se parte desse sistema. E tudo isso já está posto desde o primeiro livro.

Como eu havia dito, Peeta é responsável pela grande reviravolta dada no primeiro livro/filme. Imediatamente, podemos associar isso ao fato de que ele conseguiu gerar, pela primeira vez em 74 anos, dois sobreviventes. Tudo isso por ter sido capaz de jogar com o público. No texto do Vilaça [recomento fortemente que vocês leiam] ele verbaliza uma impressão mal formada que eu tive quando vi o filme: o caráter escapista que a capital emprega aos jogos; ela utiliza desses como a realização de experiências que faltam na vida cotidiana deles. São seres tão apáticos que precisam assistir a morte real de 23 adolescentes, anualmente, para experienciarem alguma emoção [a quem já está apontando o dedo na cara do fã de terror, mas vê direto uma temporada inteira de série, tenho más notícias: existem várias outras experiências mal-sucedidas que vocês podem estar tentando costurar em “Sense 8″, por exemplo]. Mas a grande sacada tida por Peeta é, na verdade, a mais óbvia: o público não aguentaria ver a sua provável única experiência romântica sendo violentada ao vivo e de forma sangrenta. Como resultado, os tributos viraram celebridades.


É nesse ponto que enxergamos uma virada ainda maior do que a vitória dos jogos: as pessoinhas por quem a capital não tinha empatia alguma se tornaram seus heróis e os tributos precisam dar às costas ao seu distrito e distribuir sorrisos para sustentar a fantasia da capital. Do contrário, as pessoas começariam a refletir quais eram as suas responsabilidades naquele sistema, então elas precisam de mais escapes para consumir. De repente, Katniss e Peeta se tornaram agentes de reforço do sistema que só fez mal a eles e ao seu povo e, paradoxalmente, incitadores de pequenas rebeldias, porque isso aparenta ser da natureza de Everdeen.

Paradoxalmente, Katniss se torna 2 tipos de heroína, uma para cada tipo de público, ainda que esteja, na mídia, apresentando a mesma imagem. E isso se traduz em uma crítica um tanto engajada com a fase atual do cinema voltado à adaptação dos heróis dos quadrinhos. Justamente por essa perspectiva do que é o herói e o que é o vilão. O herói é aquela criatura pura, desprovida de más intenções, e provida de um certo poder que ele usará para derrotar algum mal, geralmente, encarnado na figura do vilão - este tem características opostas e tem objetivos que são variantes de uma ordem [ou desordem] mundial, causada e governada por ele. E é aí que temos um problema: Katniss agora é parte do sistema que a oprimiu e ajudou a criar seres desprezíveis, como o presidente e toda aquela sociedade da capital; ela inclusive serve de palhaça pra eles (panem et circenses). Ou seja, além de não destruir o vilão, sem se corromper, ela acaba passando para o lado dele [de forma forçada, compreendamos, mas estamos falando de efeitos, não de causas]. Tudo isso faz da nova Katniss uma vilã? Ela, pelo menos, ainda realiza algumas atitudes transgressoras, após a fama. Mas e Peeta?


A resposta é óbvia: não. Mas é aí que percebemos o qual problemático é pensarmos o mundo sob esses dois conceitos, se não levarmos em conta os vários fatores que estão por trás de cada imagem [no caso, a imagem passada por cada pessoa]. Da mesma forma que, sem o acesso à história de vida dos personagens, Peeta, principalmente, mas Katniss também podem ser vistos como ajudantes do presidente na alienação da capital. E pior: em teoria, eles foram colocados naquela posição para pacificar a população dos distritos, de modo que estes não se revoltem contra o tal sistema. O seja, eles estão ali para fazer todas aquelas pessoas, das quais há muito pouco tempo eles também faziam parte, a digerirem aquelas injustiças. Quantos “vilões” [falo os da vida real mesmo, mas servem os ficcionais] não estiveram nesta mesma posição? E quantos oportunistas não se aproveitaram de situações semelhantes para posarem de heróis? Aqui no Brasil, foi o que mais aconteceu, esse ano.

Um último detalhe que passa despercebido na figura do herói, mas que “Jogos Vorazes” ajudou a expôr, é que ele é tido como a figura ficcional que impulsiona as pessoas a lutarem contra injustiças e ainda serem mais comprometidas com os seus objetivos. Isso é verdade, mas acontece que existem outras faces que não são discutidas, como, por exemplo, o conformismo que tais figuras geram nas pessoas [na vida real]: 1) de que as coisas estão correndo tudo bem ou sendo resolvidas pela simples presença heroica de algumas pessoas, sejam elas políticos, líderes religiosos, figuras rebeldes e transgressoras, como o tordo representa, ou quem quer que sejam; 2) elas desacreditam as pessoas da capacidade delas de realizarem qualquer coisa, baseadas nos superpoderes que elas não têm. E por favor, não me venham falar do Batman ou do Iron Man porque, para aquilo, precisa-se de um superpoder aquisitivo; o que não deixa de ser algo inacessível a grande maioria da população.


Resta saber se vamos tomar pequenas iniciativas que podem vir, ou não, a se tornar coisas grandes, ou se estamos esperando alguém resolver para nós os nossos problemas, já que que - supostamente - não nascemos habilitados para isso.
Certamente, o trabalho com as referências de outros filmes do gênero e o uso do espaço mais trash dos slasher movies já não é mais alguma novidade. Quando a fórmula criada por Williamsom e Craven esgotou possibilidades - fato muito bem representado na intro de Scre4m -, grande parte dos filmes de terror resolveu apostar no óbvio como forma de mudar a lógica da surpresa final [você espera que será algo mais surpreendente e, de repente, acaba sendo surpreendido pela primeira possibilidade descartada], outra parte resolveu apelar para a violência gráfica (Jogos Mortais, por exemplo) e a outra seguiu para a formula do falso documentário [outra que já deu o que tinha que dar]. Todo mundo em pânico e, mais recentemente, Pânico 4 mostraram que a paródia e a metalinguagem ainda rendiam boas obras. E, de certa forma, impulsionaram novas tentativas. Scream Queens foi uma delas. E posso falar que essa série deu mais uns passos à frente com essa formula.


A série da Fox é sagaz, esperta e tem uma ironia tão fina que parte dos expectadores usuais de comédias e terror vai interpretar como um insulto à inteligencia deles [e mostrar que a ironia é eles acharem que são tão inteligentes e acima dela]. A série traz tantas piadas; e tantos diálogos de duplo sentido; e tantas referências faladas e embutidas; tantos suspeitos e, claro, tantas mortes, logo no primeiro episódio, que de início, me admirou a recepção negativa de parte das pessoas que conferiram.

Só pra vocês terem uma ideia, além das óbvia referências à Scream: que vão desde à escala de estrelas de grande porte pra serem descartadas logo no início - como Drew Barrymore, no filme original - à cenas de assassinato com serra elétrica, ou num labirinto assumidamente inspirado em O Iluminado, ou mesmo no chuveiro - cena interpretada por Jamie Lee Curtis, filha da Janet Leigh de Psicose [avisando pra não interpretarem essas indicações como spoiler, pois alguns sobrevivem a essas cenas]. Os personagens, por sua vez, beiram o absurdo; e é proposital. E, talvez, seja esse ponto com o qual muitos expectadores não conseguiram lidar.


Da mesma forma que Scream buscou refletir sobre a criação de jovens psicopatas pela sociedade americana - usando, em cada filme, a violência, os podres de Hollywood e as mídias sociais como embasamento - Scream Queens retoma boa parte dessas críticas, iniciando-as justamente em 1995, foco do primeiro filme. A cena de abertura nos traz um vislumbre da superficialidade dos membros de irmandades universitárias [e dos jovens daquela geração, de modo geral], quando estas já nos são apresentadas abandonando uma colega em trabalho de parto para curtir a musica favorita delas (!!).

Marca registrada de Ryan Murphy, criador da série, as críticas são provocativas e contextualizadas. Na cena em questão, temos o perfeito vislumbre do simulacro de vida que levam os seres retratados; estes representam a ineficácia da forma como o amor é representado nas músicas, quando optam por consumir uma mensagem que poderia ser vivida. As meninas foram celebrar a vida com uma música deixando pra trás, justamente, um nascimento. Isso é uma perfeita amostra dos males de uma sociedade voltada ao consumo que só completa uma já anunciada [fora da série] falta de sentido no mundo. E não se abstenha de experimentar essa crítica porque eu estou me referindo ao nosso mundo.


E tudo isso está longe de parar por aí. Essa irmandade gera dois frutos: Grace e Chanel, as protagonistas da séries. Antagonistas entre si, a primeira é idealista e apegada ao pai - Grace romantiza a irmandade Kappa Kappa Tau, da qual pertenceu a sua já falecida mãe -, enquanto a segunda é a presidente da Kappa, desligada dos pais, exceto financeiramente, Chanel é narcisista, racista, homofóbica - enfim, possui um desprezo por todo tipo de minoria. A presidente da KKT chega ao ponto de usar membros da irmandade como minions, extensões dela que usam números (Chanel #2, #3 e #5) no lugar dos nomes - os quais ela nunca se preocupou em saber. Por outro lado, a personagem se torna manipulável quando se trata do namorado, o igualmente narcisista e igualmente presidente [mas de outra irmandade] Chad Radwell, que é empoderado pelo machismo. O que agrava o caso.

O interessante, a partir daí é a forma que os criadores/roteiristas encontram para sustentar, nas performances dos personagens e nos diálogos, as suas críticas: eles são absurdamente sinceros. Sim, eles falam exatamente o que eles acham de cada situação. Pra se ter um exemplo, tem uma cena onde as meninas estão discutindo a entrada do primeiro membro homem do grupo - um rapaz gay (personagem de Nick Jonas) que, por esse motivo, corre o risco de ser expulso da irmandade de Chad [ressaltando que o presidente o aceita e trata como irmão] - ao invés de desconversarem a sua homofobia, uma delas o ridiculariza abertamente, enquanto a outra pensa na boa publicidade que a inclusão do rapaz na irmandade seria de boa publicidade pra ela. Ainda que tudo seja atenuado com um ótimo senso de humor e boas piadas, isso pode chocar alguns expectadores justamente por expôr os preconceitos que eles escondem por medo de serem execrados nos lugares públicos e nas redes sociais. E esse tipo de reflexão/reflexo incomoda muito.


Entre estas críticas e algumas mais didáticas - como uma cena em que as meninas refletem sobre abdicarem de sua nutrição para serem magras para os homens e acabam problematizando vários outros problemas do patriarcado -, a série ainda discute temas mais neutros em relação às minorias. Temos cenas onde estudantes se comportam como palhaços enquanto a reitora é entrevistada, para aparecerem na tv [beleza, Todo Mundo em Pânico já havia feito isso]; ou quando um dos personagens é amarrado numa pilastra em frente ao campus e, ao invés de ajudarem, os seus colegas riem e tiram fotos; tem também a cena em que os estudantes vão a uma festa numa casa abandonada com cadáveres de verdade para fotografá-los [retomando os temas da falta de sentido e da celebração da vidas]; e, claro, os famosos pedem-pra-morrer, parodiando personagens que agem de forma totalmente burra nos filmes de terror porque mal escritos/dirigidos. Os próprios figurantes são dirigidos para representarem essa superficialidade, atuando de forma extremamente estereotipada. Tais coisas podem passar despercebidas, caso você simplesmente opte por julgá-los maus atores. Mas com certeza a cena mais memorável nesse quesito foi a que o assassino “bate-papo” com a vítima no whatsapp, estando um diante do outro; a cena vai ainda mais além quando a vítima vai buscar o notebook pra tuitar que está morrendo.

Com isso, eu concluo que a superficialidade proposital do enredo representa muitas desconcertantes verdades, como as já descritas - entre tantas outras que dariam uma série de texto de tantos paradigmas problematizados. Diante disso, o negócio é sintonizar o nosso senso crítico com a abordagem absurda de um enredo que, curiosamente, abdicou da verosimilhança para ser verosímil, pra que, então, ele esteja livre pra mostrar o seu espetáculo. Dar à série a chance de falar e a si próprio a chance de aprender a língua dela - isso é muito enriquecedor.

Em tempo, é sempre bom lembrar que algumas críticas vêm em tamanho único. Então é sempre bom experimentar pra ver se lhe cabem.
O problema de qualquer ferramenta é que não dá pra depositar nela a responsabilidade na conclusão de algum projeto; por melhor que ela seja, não deixa de ser uma mera ferramenta. Inclusive, você pode se machucar com ela.
Então, tem esse site chamado List Challenges cuja proposta é, basicamente, permitir que os inscritos criem listas de filmes, livros, comidas, viagens, etc. sendo que estas servirão de metas para eles próprios e outros inscritos. O acervo do site é bem conectado, então, se você marcar que já viu um filme numa das listas, todas as outras que o tiverem serão atualizadas e você pode ir marcando seus favoritos, ou mesmo o seu interesse em conferir aquela obra mais tarde.

Mas o ponto central desse site é que, como ele “troca suas experiências de vida por pontos” [tradução minha do texto informado pelo próprio site] ele acaba se tornando uma ferramenta poderosa em uma das atividades humanas mais importantes; ele transforma nossos interesses em metas. E até nos dá notas por isso, não é ótimo?


Onde mora o problema: bom, te dando nota no que você deveria fazer pela experiência, o site naturalmente desvaloriza o processo [até porque esta responsabilidade é sua]. Com isso, é um pouco tentador relegar a experiência da leitura ou do que quer que esteja nessas listas à vaga sensação de vitória proporcionada por um score. Um objetivo é super positivo quando ele te torna mais compromissado com os seus interesses, mas você não pode perdê-los de vista, em prol de uma linha de chegada imaginária esvaziada de qualquer significado.

Vou exemplificar melhor. Na primeira lista que me chamou atenção, encontrei alguns dos “Livros Cuja Leitura Leitura É Indispensável”, termo que pego emprestado do Ítalo Calvino para falar de 1984, Jane Eyre, O Senhor dos Anéis, Admirável Mundo Novo, Anna Karenina, entre tantos outros que deram uma lista de 100 itens, em pouco mais de meia hora de uso. O que posso tirar de positivo nisso foi perceber que também tinham alguns livros do quais eu já havia lido, e como isso me renovou o ânimo em progredir agora que tenho isso como objetivo; e até mesmo retomar e concluir algumas leituras, como Madame Bovary, e O Som e a Fúria (livro mais desafiador com o qual joguei, até hoje). Mas o que aconteceria se, por um mero deslize, eu esquecesse os livros e focasse no cumprimento da lista?

Assim como no já citado caso das notas, isso é muito comum em interesses que aparentemente são nossos, como uma meta de leitura, ou uma maratona de filmes indicados ao Oscar, por exemplo. De repente, o foco se volta para a quantidade de obras que eu conseguir acompanhar; e não para o que elas podem me trazer de bom/ruim/produtivo. Assim como existem muitas pessoas felizes da vida com a sua grande lista de séries assistidas, como se aquilo fosse parte da sua própria identidade [e, de fato, acaba sendo], muitas pessoas resolvem que vão ler esses 100 itens da minha lista em um ano. Isso significa que a pessoa terá de ler 2 livros por semana, e eu não imagino uma pessoa lendo O Som e a Fúria numa média de 3 dias. Geralmente, essas pessoas resolvem esse problema dos livros complexos colocando vários livros rasos na meta, pra compensar o tempo gasto neles com quantidade - isso quando não os leem de forma superficial. Daí, ao fim, desses 100 livros, imagino que tudo o que sobra é um vazio do tamanho do universo. Joga-se uma experiência inteira fora, em nome de um objetivo que muitas vezes nem é seu - caso o fora, se transformou em um invólucro vazio, algo sem o menor sentido.


Eu pretendo encerrar este texto examinando a palavra "Sentido" em relação a uma lista que me chamou atenção: 50 Livros para se ler antes de morrer. Aí eu já não sei se ficou claro, mas a alusão à morte - como o grande sentido que nos move, enquanto seres vivos - me lembra que vai ser uma pena não reparar nas árvores ao longo dessa grande viagem. Se estamos falando de viagem, experiência, emprego “sentido” no sentido de “direção” e pergunto:
Para onde estamos indo com isso?
Há 75 anos, a Capital (dos Estados Unidos) colhe 24 adolescentes, entre 12 e 18 anos, como “tributos” aos Jogos Vorazes - onde eles irão se “eliminar” até que sobre apenas um vencedor. A arena é artificial, teleguiada e repleta de câmeras que promovem, ao público da capital - que tem ócio suficiente para ver TV o quanto quiserem -, o banho de sangue como entretenimento e, aos distritos, um lembrete da sua derrota num levante ocorrido contra a capital; tendo esta quase a mesma idade do reality show justamente por tê-lo motivado. Dois públicos, duas mensagens.


O público da capital é vazio e raso, tomando as suas identidades pela forma como combinam as cores das suas vestes e cabelos. Estes são abastecidos pelo trabalho dos distritos, que “oferecem” suas especiarias (o de Katniss, por exemplo, produz carvão) em troca de miséria [não foi pra causar efeito nenhum, essa frase; eu realmente não consigo pensar em outra coisa que eles recebam em troca]. Um ponto relevante sobre os distritos é que os mais próximos da capital possuem melhores condições de vida; e que essa proximidade reflete numa identificação com esta e até mesmo um certo orgulho do seu papel naquele sistema (a saber, produzir “heróis” para os Jogos).

Dois fatores que contribuem com a teia densa de fundamentos do antagonismo que Katniss precisará enfrentar são: 1) a ideologia por trás da opressão da capital de, não pintar o mundo com o mal e fazer as pessoas sofrerem por diversão, mas conter uma nova guerra [ressaltando que não estou defendendo a capital, mas discutindo a composição da obra]; 2) eles possuem aliados entre os próprios oprimidos: tanto os habitantes da capital - que acreditam que, por ter comida e entretenimento (ambos voltados ao consumo), são bem tratados e sortudos por terem um governo tão generoso -, quanto os membros dos distritos mais ricos - que ao invés de questionarem aquele sistema, correm atrás dos valores, e ainda se sentem vitoriosos em terem o seu escárnio travestido de metas de vida compartilhados na mídia.

É nesse contexto que se inclui uma protagonista marcada por atos rebeldes involuntários - que vão de mudar o resultado do sorteio dos participantes a vencer sem matar ninguém, a despeito da proposta do torneio. Katniss acaba se tornando um simbolo da revolução, pra uns, e um produto cultural, pra outros. A personagem, que tinha boas habilidades com o arco [acho mais legal que espada], entra no lugar da irmã, que não tinha possibilidade nenhuma de vencer naquele ambiente. Do outro lado, há o admirador secreto desta, o padeiro Peeta; peça chave na reviravolta da trama (a nível de trilogia).


Quando Peeta percebe que são permitidos “patrocínios” [e que eles são muito pobres pra receber algum], começa a se esforçar em conquistar o público público. E o que mais iria agradar uma sociedade de plástico, rasa e alienada do que um romance adolescente?

Enquanto Katniss tá transbordando de insegurança e revolta cruas - desconfiando de tudo e de todos e preocupada apenas com a sua segurança e vitória -, Peeta vai fazendo o seu marketing e manipulando o resultado do torneio; se a gente, como leitor/expectador [whatever-deen], já sabe que eles dois vão sobreviver até o fim, pelo menos a autora se preocupa em representar a influencia da vontade do público no resultado da obra. E isso que começa a tornar Jogos Vorazes cada vez mais interessante: como que, de uma perspectiva baseada na metalinguagem, as narrativas (livro e filme) propõem uma autoconsciência ao leitor enquanto público não da obra, mas dos próprios jogos. Esses que Peeta saca, logo de cara; antes mesmo de entrar no torneio. Esses que a indústria cinematográfica já domina tão bem. E todos nós estamos tão dispostos a jogar.
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